Devaneios na aula de pedagogia

Engana-se caso você pense que eu seja um nerd que marca pre­sença nas aulas, par­ti­cipa das gin­ca­nas e apaga a lousa para o pro­fes­sor. Durante uma aula de peda­go­gia em 2006, tive uma reve­la­ção de cunho divino: uma mulher que nunca leci­o­nou no ensino público não pode ser levada a sério quando diz para con­tar­mos his­tó­rias para nos­sos alu­nos e rea­li­zar ati­vi­da­des prá­ti­cas edu­ca­ti­vas. Pen­sando no índice de acei­ta­ção dos manos das que­brada dos ter­cei­ros cole­gi­ais notur­nos em rela­ção ao Pro­fes­sor Cafe­tron de Física contando-lhes uma his­tó­ria, fechei meu livro, abri um caderno e come­cei a escre­ver embestiado.

Isto é o que os cien­tis­tas cha­mam de brains­torm. Uma das manei­ras mais prá­ti­cas de mani­fes­tar suas idéias é explodi-las no papel da maneira como vie­rem à mente. Depois é só sele­ci­o­nar aquilo que presta e aquilo que aque­cerá uma famí­lia no inverno. Ao reler o que escrevi, per­cebi que tudo se encai­xava como um quebra-cabeça e decidi que nenhum tre­cho seria apa­gado. Perdi uma aula inú­til, mas foi bom: rendeu-me umas boas idéias para o meu futuro livro. Eis abaixo um pro­duto do ócio que mere­ceu virar um post.

Para maxi­mi­zar o efeito psi­co­dé­lico deste ensaio sur­re­a­lista, leia sem parar.

Era o ano de 1996. O verão em Cuba agra­ci­ava a ilha com chuva ácida durante o tri­mes­tre todo. Coffe, um cari­nha semi-gordo de camisa aberta e des­pre­o­cu­pado, pas­se­ava com um boneco do Mic­key na mão, feito de veludo, em frente à fábrica de cha­ru­tos afro­di­sía­cos de menta “Levan­tate!”. Por uma cons­pi­ra­ção sín­crona do Uni­verso e de Fidel Cas­tro, um raio acerta a cúpula de zinco da fábrica e deixa exposta a sala da dire­to­ria da empresa. Jua­nito Gue­vara, irmão do avô do genro do amigo do antigo com­pa­nheiro de quarto de Ernesto Gue­vara, era um anti-desenhos-da-disney fer­re­nho e estava em uma reu­nião na fábrica, quando houve a des­trui­ção do teto, der­ru­bando farelo de zinco em seu copo de café. Viu de relance Coffe na cal­çada, pen­te­ando seu Mic­key e deci­diu que eles deve­riam ser bani­dos de Cuba em uma caixa de charutos.

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Usando o Mic­key de veludo como remo, Coffe atra­ves­sou o Atlân­tico durante dois dias e duas noi­tes, che­gando final­mente ao lugar o qual o des­tino havia lhe reser­vado: Came­lot. Coffe per­ma­ne­ceu no quarto de visi­tas do cas­telo de Rei Arthur e 3 sema­nas depois desen­vol­veu pro­ble­mas psi­co­ló­gi­cos sérios após fazer sexo com a rai­nha e ter seu pau trans­for­mado em um sapo can­tor; gra­ças a Mer­lin, o mago.

Coffe aca­bou fugindo para os con­fins da Europa com medo de que mais algum mem­bro impor­tante de seu corpo se tor­nasse um ani­mal cantante.

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Coffe per­cor­reu os Cár­pa­tos a pé, sal­tando sobre uma perna só, sem­pre sob a tri­lha sonora da ópera Puta­nesca, can­tada com maes­tria por sua geni­tá­lia tenôr. Fazendo uma pequena parada em um bar de moto­quei­ros à beira da estrada, conhe­ceu uma gar­ço­nete nor­manda de duas cabe­ças; uma lés­bica e a outra bi. Coffe aca­bou se apai­xo­nando pela lés­bica. A moça tinha como mas­cote uma capi­vara mal­tesa cha­mada Pim­pão, que se apai­xo­nou pelo Mic­key de veludo de Coffe, arrancou-o de suas mãos com os cani­nos e fugiu para longe. Os tablói­des da Europa, no dia seguinte, cobrem a his­tó­ria da capi­vara que foi recep­ci­o­nada na Galí­cia com um boneco do Mic­key preso nos den­tes e que foi extraído por um den­tista malaico, achando que era tár­taro nos molares.

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Aba­tida pela fuga de Pim­pão, a gar­ço­nete se alis­tou na Legião Estran­geira e foi con­vo­cada pela pre­fei­tura da cidade para neu­tra­li­zar o movi­mento secreto das Geléias de Mocotó Assas­si­nas. Ela não con­se­guiu sub­jul­gar a rebe­lião, pois se envol­veu com a líder do grupo. Ela e a cabeça lés­bica da gar­ço­nete foram para o norte e cri­a­ram uma ONG, lutando pela causa das ervilhas-bomba esqui­mós, “Por um Ártico Livre de Focas”, pois estes ani­mais faziam muita fofoca para as ervi­lhas ama­re­las. O cora­ção de Coffe estava par­tido, assim como a coluna ver­te­bral da gar­ço­nete de duas cabe­ças, pois a cabeça bis­se­xual resol­veu ficar e fazer car­reira como enge­nheira de catapultas.

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Coffe, se sen­tindo per­dido na vida, resol­veu se esta­be­le­cer na casa dos fun­dos do bar “Vladmir’s Drin­king Bar”, que ficava no meio do nada. Após demons­tra­ção de como fazer uma boli­nha de saliva dupla, Coffe con­se­gue o posto de segundo auxi­liar aju­dante de ope­ra­dor de máquina de chá gelado de camo­mila. Enquanto havia uma tem­pes­tade de raios, Coffe con­ser­tava a máquina e por uma infe­li­ci­dade da vida foi atin­gido, fazendo com que uma chu­lapa de 30cm de tân­talo e açú­car mas­cavo se ane­xasse ao seu qua­dril, tornando-a um sim­bi­onte. Coffe agora con­se­guia sin­to­ni­zar esta­ções de rádio da Mon­gó­lia atra­vés de seu pâncreas.

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Para come­mo­rar sua mais recente habi­li­dade de cap­tar ondas cur­tas de rádio, Coffe sentou-se ao bal­cão e pediu a Vlad­mir, o Ter­rí­vel, para que pre­pa­rasse o Crazy Ham­mu­rabi, drink inven­tado pelo faraó Akhe­na­ton para tor­nar o pro­cesso de mumu­fi­ca­ção mais agra­dá­vel. Acom­pa­nhava de brinde um mini encarte plas­ti­fi­cado com as Leis de Talião. Coffe engas­gou com uma rodela de kiwi em sua bebida enquanto a tele­vi­são mono­cro­má­tica de 14 pole­ga­das, sus­pensa no teto do bar, mos­trava a coro­a­ção de Pim­pão, a capi­vara, como rei da Espa­nha, ao tempo que toca­vam no fundo o Bolero de Ravel.

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Enquanto se encon­trava incons­ci­ente, asfi­xi­ado pela fruta mor­tal, Coffe sonhou que estava fora do corpo. Via­jou por todos os pla­ne­tas do sis­tema solar, parando final­mente em um pla­neta cha­mado Algo onde se encon­trou subi­ta­mente fazendo sexo com um abri­dor de latas gigante. Ao ser acor­dado por para­mé­di­cos com um jarro de água no rosto, Coffe teve um lam­pejo de ins­pi­ra­ção e enten­deu que deve­ria fazer uma incrí­vel jor­nada até Serra Leoa, acom­pa­nhado de um cachorro São Ber­nardo, um Lhasa Apso e um gato sia­mês invisível.

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Em meio ao deserto, depois de 7 minu­tos de via­gem, o gato invi­sí­vel ficou preso nos espi­nhos de um cac­tus invi­sí­vel, cau­sando um ata­que car­díaco no São Ber­nardo e fazendo-o desa­bar sobre o Lhasa Apso, que­brando seu crâ­nio em 6 peda­ços dis­tin­tos e transformando-o em uma pan­queca peluda de asfalto… digo, de areia. Coffe cor­reu em câmera lenta na dire­ção dos ani­mai­zi­nhos aci­den­ta­dos e sol­tando lágri­mas pelo ar ao som de Ray Coniff, tro­pe­çou em uma placa com os dize­res “Bem-vindo a Serra Leoa — Nós te amamos”.

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A atmos­fera era leve e tinha cheiro de Pinho Sol den­tro do perí­me­tro de Serra Leoa. Coffe seguiu pela estrada de para­le­le­pí­pe­dos ama­re­los até che­gar na está­tua de Darth Vader, orgu­lho da nação. Em uma fra­ção de fúria, Coffe res­mun­gou para si mesmo: “Você não é meu pai” e come­çou a se afas­tar de cos­tas, passo por passo. Ele então ouve um gemido surdo e se dá conta que o guar­dião da está­tua ten­tava atropelá-lo; um Lada com o capô em forma do rosto do Jack Nichol­son e que fazia um baru­lho seme­lhante ao do Furby, o Fusca falante.

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Coffe deci­diu que era hora de apli­car seu golpe secreto, apren­dido com um monge chi­nês que acei­tou ensi­nar sua téc­nica em troca de uma figu­ri­nha da Copa Mun­dial de Bets de Areia de 1970. Quando o guar­dião de 4 rodas se apro­xi­mou a uma dis­tân­cia con­for­tá­vel de Coffe, este assu­miu a pos­tura de com­bate mile­nar do pardal-sem-patas e, cho­rando e rodo­pi­ando furi­o­sa­mente de joe­lhos, come­çou a bater os bra­ços como um pato des­pe­nado se afo­gando em uma bacia de Coca-Cola. O Lada igno­rou o golpe mís­tico de Coffe e o arre­mes­sou longe com o para-choques. O intré­pido e voa­dor Coffe atin­giu a velo­ci­dade de cru­zeiro de 88 milhas por hora e com cada uma das náde­gas cus­pindo laba­re­das, dei­xando um ras­tro para­lelo de fogo pelo ar, sua chapa sim­bi­onte de tân­talo começa a atuar como um capa­ci­tor de fluxo do Dou­tor Brown, amigo de Marty McFly, fazendo Coffe transpôr a bar­reira do tempo e pou­sar no ano de 835 DC, den­tro de um drak­kar viking.

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Coffe foi encon­trado por Mor­gan Fre­e­man, o viking anão, se deba­tendo como se qui­sesse ven­cer o Colum­bia em uma cor­rida de pro­pul­são, mas preso na rede de pesca do navio. Mor­gan expli­cou que aquele era um grupo de pes­ca­do­res de sar­di­nha e disse que estava muito triste naquela noite, pois por ser anão, os outros pes­ca­do­res viking o debochavam.

Não importa o tama­nho, mas sim o con­teúdo”, disse Coffe. Mor­gan ficou con­fi­dente de si e cor­reu até o con­vés, sabo­re­ando e deco­rando cada pala­vra do ditado recém inven­tado por Coffe. Quando ele con­se­guiu a aten­ção dos cole­gas, gri­tou: “O con­teúdo é a chave do sucesso empre­sa­rial!”, reco­lhendo um braço e esten­dendo o outro aos céus, como o Super-Homem tra­vado. Todos os pre­sen­tes para­ram com suas ati­vi­da­des ime­di­a­ta­mente e se silen­ci­a­ram, olhando fixa­mente para Mor­gan, enquanto o canto dos gri­los con­tra­pu­nham o baru­lho das ondas do Mar do Norte. Após 7 segun­dos de refle­xão e uma cena está­tica, todos ber­ram feli­zes um hino de guerra, tiram do bolso uma caneca com hidro­mel e cho­cam umas às outras, ati­rando las­cas de barro por todo o navio. Ao che­ga­rem em terra firme, eles fun­dam a Gene­ral Motors of Göts­land e se casam com escra­vas rui­vas da Saxônia.

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Com o sucesso das linhas de mon­ta­gem de mas­tros para drak­kars, Coffe é agra­ci­ado com o Talismã Nór­dico do Ema­gre­ci­mento. Ao colocá-lo em volta do pes­coço, Coffe cai nova­mente no túnel do tempo, mas com 2,5kg a menos. Ele pousa de cóco­ras na época atual, sobre os Arcos de Paris, com a cara sobre um jor­nal do dia. Lá dizia que Coffe era agora per­se­guido pela máfia egíp­cia, por ter come­tido a here­sia con­tra seus ante­pas­sa­dos no momento em que se engas­gou com o Crazy Ham­mu­rabi, bebida sacra para os povos da meso­po­tâ­mia que ser­via tanto para ritu­ais de mumi­fi­ca­ção quanto para beber na área de chil­lout da rave Anu­be­ats que ocor­ria quin­ze­nal­mente na Pirâ­mide de Gizé. Oca­si­o­nal­mente era uti­li­zada tam­bém para lubri­fi­car came­los albinos.

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Coffe resolve entrar para o crime orga­ni­zado russo em Paris para se pro­te­ger. Boris, mais conhe­cido como Boris “o Taxista” aplica um teste psi­co­téc­nico em Coffe para deter­mi­nar se ele sabe enga­ti­lhar rifles e desem­bru­lhar guarda-chuvinhas de cho­co­late sem quebrá-los ao meio. Depois, Coffe deve­ria pas­sar por uma uma ponte, cor­rendo, enquanto alguém lhe ati­ra­ria bolas de bas­quete, seguido de uma pas­sa­gem com lâmi­nas mil cor­tando o ar até che­gar do outro lado e, por fim, uma briga de coto­ne­tes gigan­tes com uma mulher de biquini até que um dos dois caísse do seu pilas­tro de 15m de altura. Coffe é aceito, mas foi man­dado embora 50 segun­dos depois por não saber dobrar a lín­gua e nem pis­car um olho só. Então enca­mi­nhou Coffe para o Clube de Xadrez, diri­gido por seu primo de segundo grau Boris “O Feirante”.

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Con­ti­nua!

Histórias do fim do mundo

Capí­tulo 4
Pre­lú­dio do fim

O ambi­ente estava gla­mo­ro­sa­mente agi­tado e com cheiro de sham­poo “sabor cereja”, como todo salão de beleza unis­sex barato deve­ria ser. O mas­ti­gar das diver­sas tesou­ras acon­te­cia fora de com­passo, aba­fando as gar­ga­lha­das escan­da­lo­sas de cabe­le­rei­ros afe­ta­dos que tro­ca­vam fofo­cas com mulhe­res de meia idade, todas ador­na­das com bobes nas cabe­lei­ras cres­pas, incluindo alguns dos pró­prios cabe­le­rei­ros. Os poo­dles de com­pa­nhia com laços sor­ti­dos iam e vinham, pula­vam e rodo­pi­a­vam no ar em um balé caó­tico pelo salão, como pipo­cas pelu­das em uma panela aberta. Hora ou outra ouvia-se um cão­zi­nho sendo aplai­nado pelos pés de uma fun­ci­o­ná­ria desa­ten­ci­osa e seu res­pec­tivo berro assus­tado. Os menos afe­mi­na­dos gar­ga­lha­vam, outros(as) sur­ta­vam em mil e uma blas­fê­mias no idi­oma das pas­sa­re­las. A tele­vi­são sus­pensa acres­cen­tava uma inter­fe­rên­cia de fundo, inter­ca­lando cenas da novela da tarde com plan­tão de notí­cias. Eu odeio cabelereiros.

Era uma semana impor­tante e fora do comum, tal­vez eu até apa­re­cesse no tele­jor­nal da região e desse meu depoi­mento sobre O Grande Evento. Não pode­ria sim­ples­mente igno­rar minha apa­rên­cia mulam­benta. Algu­mas horas antes eu havia deci­dido tomar o rumo até a bar­be­a­ria do Dito, um senhor vete­rano de guerra que agora era bar­beiro, e já sepa­rou mais ore­lhas do corpo que trin­cos das gra­na­das. “Sem tesoura, o senhor pode pas­sar só a máquina”, um jar­gão prá­tico que desen­volvi para minha pró­pria segu­rança enquanto obser­vava a cli­en­tela do Ditão desem­bol­sar mais do que trocados.

Era o único bar­beiro do bairro e naquele dia se ausen­tou, dei­xando uma pla­qui­nha pen­du­rada na maça­neta da porta dupla de vidro: AFB (away from bar­bershop). Havia entrado em coma ao con­fun­dir o remé­dio para dia­be­tes com o ener­gé­tico Power Ninja de seu neto bom­bado. Minha única opção naquele dia era, deste modo, desviar-me ao salão de beleza mais pró­ximo, “Vislumbre’s Hair­cut & Cia”, e espe­rar que o cabe­le­reiro sele­ci­o­nado pelo Uni­verso para me aten­der fosse dis­creto e pre­fe­ren­ci­al­mente mudo. Lembrei-me, ao pôr os pés na soleira cor-de-rosa do salão, de que a dis­cri­ção é um termo ine­xis­tente no mundo do gla­mour e mesmo os cabe­le­rei­ros mudos usam aven­tais lan­te­jou­la­dos que falam por eles e todos os mudos do mundo. David­son, o rapaz que tesou­rava meu cabelo naquele tem­plo pan­demô­nico feito de ossos, san­gue e laquê, era tão unis­sex quanto o pró­prio salão e dis­pa­rava fofo­cas quen­tís­si­mas enquanto eu não pres­tava a mínima atenção.

Ter­mi­nado o ser­viço, fui levado até uma sala onde per­ma­neci dei­tado em uma cadeira engra­çada para lavar o cabelo e tirar aque­les fio­zi­nhos cha­tos que ficam na roupa. Desa­ca­tando minha ordem de ape­nas cor­tar o cabelo e evi­tar fres­cu­ras cos­mé­ti­cas, David­son me lar­gou com a cabeça lam­bu­sada em creme rinse e falou: “Vou bus­car uma pomada para o cabelo MA-RA-VI-LHOSA, volto logui­nho!”. Saiu e fechou a porta logo atrás. Ele era um homem alto, de apro­xi­ma­da­mente dois metros e pele escura, ves­tindo rou­pas bran­cas com um aven­tal rose­ado. Saiu sal­ti­tando pela porta com o nariz de batata arre­bi­tado para os céus, digno de um per­so­na­gem de Mary Poppins.

Capí­tulo 5
Acor­dei que sonhava

Dor­mia mal. Ora ou outra eu acor­dava com o pró­prio ronco e me virava para o outro lado da cama. Sonhei com deze­nas de temas dife­ren­tes e todos os finais leva­vam a um abismo ou uma escada onde eu tro­pe­çava, caía e acor­dava de susto com os olhos semi-cerrados. Era quase manhã, pare­cia, a luz do sol ainda era fraca. Estava com frio e mor­rendo de von­tade de uri­nar, mas a pre­guiça de levan­tar da cama era até mesmo maior que a dor de cabeça, que só havia sur­gido durante a noite.

Tal­vez eu tivesse dei­xado o edre­dom cair da cama de novo. Com os olhos fecha­dos, tateei à minha volta a pro­cura do cober­tor errante e ins­tin­ti­va­mente tra­vei a res­pi­ra­ção com as pál­pe­bras for­te­mente fecha­das. Não foi o fato de meu cober­tor ter sumido, do tra­ves­seiro estar duro como uma pedra ou da minha cama estar inten­sa­mente empo­ei­rada, mas algo maior e intui­ti­va­mente mais sério do que uma noite agi­tada. Pus-me sen­tado na cama, ainda sem abrir os olhos, e espe­rei acon­te­cer algo fora do comum, certificando-me de que eu ainda estava sonhando e não acor­dei. Um daque­les sonhos den­tro dos sonhos que você pode mani­pu­lar a rea­li­dade, criar pes­soas para em seguida explodí-las e, final­mente, acor­dar quando bem quiser.

Enquanto cal­cu­lava se deve­ria ave­ri­guar o que estava acon­te­cendo fora do sonho, senti um forte aroma de cereja. Sham­poo de cereja. Pelo amor de Deus e tudo que era mais sagrado, eu não estava no meu quarto. Eu não vol­tei para casa naquele dia. Não era para eu estar dor­mindo! O que eu estava fazendo antes? Ah, cor­tando o cabelo. Eu ainda devo estar então…

Capí­tulo 6
No fim do espetáculo

Minha memó­ria dizia enfa­ti­ca­mente de que eu estava no salão de beleza, no cômodo onde havia as cadei­ras com esgui­cho d’água. Meus olhos, por outro lado, sus­sur­ra­vam que eu estava sob uma pilha de escom­bros onde a única fonte de luz vinha de uma pequena aber­tura pouco maior que um pês­sego. Tomado em deses­pero ímpar, como o de uma meni­na­zi­nha inglesa vendo seu gati­nho sendo devo­rado por uma ara­nha das Índias Ori­en­tais, esfolei-me fre­ne­ti­ca­mente ten­tando empur­rar as pedras mais leves ao redor daquele buraco até que eu pudesse pas­sar por um racho sufi­ci­en­te­mente grande. O espaço para tal era bas­tante limi­tado e eu mal con­se­guia per­ma­ne­cer em pé.

Meti a cabeça para fora e vol­tei ins­tin­ti­va­mente. “Se eu vol­tar para den­tro, posso viver aqui por mais algum tempo até que tudo volte ao nor­mal”, pen­sei, após a lógica ter me aban­do­nado repen­ti­na­mente. Por alguns segun­dos que pare­ce­ram horas de medi­ta­ção, ten­tei cal­cu­lar men­tal­mente quanto tempo seria neces­sá­rio até que a rea­li­dade lá fora se alte­rasse mira­cu­lo­sa­mente, con­tra­pondo esta variá­vel com quanto tempo eu agüen­ta­ria sem ir ao banheiro. Pen­sei na pro­ba­bi­li­dade de um tubo do Mario bro­tar perto de mim, tal que ele desse dire­ta­mente na minha casa. Já sem qual­quer pingo de razão, con­cluí: “quando vol­tar, pre­ciso pos­tar isso no blog”. Perdi-me nas con­tas e vol­tei a mim.

Minha cabeça late­java e pare­cia que eu vomi­ta­ria a cada pul­sada, se den­tro do meu estô­mago ao menos hou­vesse algo. Apa­ren­te­mente eu hou­vera ficado mais que um dia den­tro da bat-caverna. Além da fome, minha gar­ganta estava tão seca quanto aquela toca inós­pita de con­creto e sham­poo de cereja. Depois de mais alguns arra­nhões bas­tante pro­fun­dos, libertei-me daquele espaço minús­culo e per­ma­neci em pé sobre o monte de escom­bros, com as mãos na cabeça por algum tempo. Não era um sonho de mau gosto ela­bo­rado por meu sub­cons­ci­ente maso­quista, tam­pouco fui tele­por­tado para a série de jogos Fal­lout.

As pare­des do salão per­ma­ne­ciam em pé, pre­te­ja­das do lado de fora como um forno de pizza, mas sem qual­quer ves­tí­gio de telhado (ou pizza). O chão fora acol­cho­ado por con­creto, ver­ga­lhões, telhas aos cacos, pes­soas e cachor­ri­nhos mor­tos e deze­nas, tal­vez cen­te­nas de emba­la­gens colo­ri­das de con­di­ci­o­na­do­res para cabelo. Todos assas­si­na­dos por tesou­ras finas, lon­gas e de tirar volume que voa­ram em dire­ções diver­sas, pro­va­vel­mente devido a um grande impacto.

A vizi­nhança não era dife­rente. Tudo aquilo que um dia foi um bairro resi­den­cial agora era um con­junto de pare­des quei­ma­das por um inferno dan­tesco. A rua e as cal­ça­das esta­vam ple­na­mente cober­tas de obs­tá­cu­los. Cami­nhar por elas exi­gia muita aten­ção e um estô­mago de ferro para não pisar em estô­ma­gos, entre outras vís­ce­ras. Havia cor­pos joga­dos aos milha­res; uns enru­ga­dos e escu­ros como uvas pas­sas, outros cober­tos em san­gue seco. Quase todas as pes­soas segu­ra­vam seus celu­la­res — alguns foram com­ple­ta­mente der­re­ti­dos e ane­xa­dos aos crâ­nios das uvas pas­sas, enquanto outros pare­ciam intac­tos. Em minhas mãos ten­tei fazê-los ligar, mas era inútil.

O céu estava com­ple­ta­mente enco­berto e mal se pode­ria ver o sol. O ar estava seco e pesado. Era pos­sí­vel sen­tir um cheiro suave de ozônio.

A bomba havia explo­dido, o Dia do Jul­ga­mento havia che­gado e o cata­clisma de três dias havia pas­sado enquanto eu per­ma­ne­cia em coma, pro­te­gido mis­te­ri­o­sa­mente por escom­bros e óleo rinse. Eu não sabia ainda, mas naquele momento eu era o ser humano com o corte de cabelo mais bonito do planeta.

O Diário de Ludwig Von Barbie

Capí­tulo 1
Banho de sangue

12 de abril de 1941.

Que­rida Olga,


O
dia de hoje come­çou ter­rí­vel. Acor­dei com uma gra­nada explo­dindo há alguns pas­sos da minha ore­lha. Fiquei surdo durante todo meu café da manhã, mas depois melho­rou. Tenente Spi­e­gel disse que san­grar pelas ore­lhas é com­ple­ta­mente nor­mal nesta época do ano e depois me esta­peou na frente dos meus ami­gos por ter ficado perto de uma gra­nada enquanto dor­mia. Des­con­fio tam­bém que durante a noite alguém rou­bou minhas pan­tu­fas de avioezinhos.

(…)

26 de abril de 1941.

Que­rida Olga,


A
água estava fria, esver­de­ada e com cheiro de sal­mão e gás mos­tarda. Mal cru­za­mos o rio ao qual acam­pá­va­mos pró­xi­mos e então meu colega de saco-de-dormir, Schultz, foi atin­gido por uma bala per­dida. A guerra está come­çando a se tor­nar um lugar peri­goso. Schultz é sadio como um boi, tenho cer­teza de que ele ficará bem, mesmo com meio abdó­men. Que­rida, desculpe-me pelo bor­rão de san­gue nesta página. Res­pin­gou quando o sar­gento Scho­pe­nheim­mer chu­tou uma mina ato­lada na mar­gem do rio ao confudí-la com um fris­bie.

(…)

17 de maio de 1941.

Que­rida Olga,


D
epois de 20km de subida, para­mos em uma igreja nas pro­xi­mi­da­des de Var­só­via. Sua arqui­te­tura bucó­lica con­for­tava o espí­rito, até mesmo o mais ator­men­tado. O bispo era russo, então incen­di­a­mos a igreja e pilha­mos a dio­cese. Sabia que frei­ras quei­mam em verde? O padre era de bom cará­ter. Pagou refresco para todo o pelo­tão em troca de sua pró­pria vida e acei­tou gen­til­mente brin­car de roleta russa. Minha brin­ca­deira favo­rita! Pena que foi rápido demais com ape­nas um joga­dor. Ganhei a aposta de 10 fran­cos e uma bala de morango — Hein­rich estava sem troco. Doei toda a soma para a vaqui­nha que esta­mos fazendo para res­tau­rar o intes­tino grosso de Schultz.

(…)

Capí­tulo 2
Emos


N
ão exis­tiam emos na Segunda Guerra.
Uma pena.

Capí­tulo 3
Uma virada de sorte

21 de maio de 1941.

Que­rida Olga,


V
ocê se lem­bra das frei­ras fla­me­jan­tes da semana pas­sada? Pois bem, nosso sar­gento achou melhor sal­var algu­mas para fins cien­tí­fi­cos. Fiquei muito feliz por poder assis­tir ao expe­ri­mento. Você estava certa, que­rida, um dia come­ça­riam a reco­nhe­cer meu valor. Se eu entendi direito, que­riam obser­var como uma pes­soa rea­gi­ria a cho­ques elé­tri­cos com e sem uma col­méia de ves­pas afri­ca­nas na cabeça.

(…)

15 de julho de 1941.

Que­rida Olga,


S
ervi como aju­dante para uma expe­ri­ên­cia. Estou um pouco zonzo. No momento estou na cama e alguns pares de cilin­dros baru­lhen­tos aco­pla­dos à lagarta de um Pan­zer estão fazendo o ser­viço dos meus órgãos inter­nos, que foram remo­vi­dos. Meus supe­ri­o­res me proi­bi­ram de escre­ver mais infor­ma­ções, pois temem que você seja uma espiã. Tenente Spi­e­gel disse que man­da­ria um des­ta­ca­mento de 20 homens para ave­rigüar — eles a inter­ro­ga­rão, que­rida, nos porões de casa. Espero que tenha se lem­brado de limpá-lo e de ser­vir chá preto e bis­coi­tos de nata quando che­ga­rem. Eu te amo, querida.

(…)

24 de julho de 1941.

Que­rida Olga,


P
ara come­mo­rar minha mais recente habi­li­dade de cap­tar ondas cur­tas de rádio atra­vés dos meus rins, Tenente Spi­e­gel me con­ce­deu um dia de folga. Eu estava sen­tado ao bal­cão da taverna de Vlad­mir, o Ter­rí­vel, e pedi para que pre­pa­rasse um Crazy Hammurabi.

Capí­tulo 4
Uma breve his­tó­ria do Crazy Hammurabi


O
Crazy Ham­mu­rabi foi um drink inven­tado pelo ado­les­cente faraó Akhe­na­ton e, por acom­pa­nhar de brinde um mini encarte plas­ti­fi­cado com as Leis de Talião, era a sen­sa­ção do evento anual que ocor­ria na Pirâ­mide de Gizé, a festa Anubeats.

A bebida leve­mente amarga e de colo­ra­ção pouco con­fiá­vel se tor­nou orgu­lho daquela dinas­tia egíp­cia por duas razões: ser­via tanto para refres­car os dias escal­dan­tes à beira do Nilo, quanto para embal­sa­mar cor­pos em está­gio avan­çado de putre­fa­ção. Em certo momento da his­tó­ria, um boato cor­reu por toda a Meso­po­tâ­mia decla­rando uma mís­tica capa­ci­dade do Crazy Ham­mu­rabi de remo­ver man­chas difí­ceis, ele­vando a bebida ao sta­tus de líquido pre­ci­oso jor­rado de algum ori­fí­cio de um deus egíp­cio com cabeça de ani­mal domés­tico.

A bebida em si não era tão agra­dá­vel, mas os ador­nos fei­tos com fru­tas sil­ves­tres cul­ti­va­das nos fun­dos do bar de Vlad­mir con­ce­dia ao drink um gos­ti­nho todo espe­cial de suco feito pela mamãe.

Capí­tulo 5
O golpe do destino

(con­ti­nu­a­ção da última entrada no diário)


E
nquanto bebia meu Crazy Ham­mu­rabi, em uma fra­ção de dis­tra­ção engasguei-me com a rodela de kiwi. Não estava pres­tando aten­ção, pois o rádio sus­penso no teto do bar nar­rava o Big Brother Aus­chwitz ao som de Wag­ner. Você sabe como fico bobo quando ouço “Bor­bu­lhas de Amor Opus No. 5″. Fiquei incons­ci­ente, asfi­xi­ado pela fruta mor­tal. Foi uma expe­ri­ên­cia ines­que­cí­vel, que­rida, pois meu espí­rito saiu do corpo. O mundo espi­ri­tual real­mente existe, quem sabe até mesmo a vida após a morte. Pude ver meu pró­prio corpo físico no chão, enquanto meu espí­rito podia se movi­men­tar livre­mente. Ao atra­ves­sar as pare­des do bar, encon­trei outros espí­ri­tos, que me mos­tra­ram as pecu­li­a­ri­da­des do mundo astral. Via­jei por todos os pla­ne­tas do sis­tema solar, parando final­mente em um aste­róide onde me vi subi­ta­mente fazendo sexo com um abri­dor de latas gigante.

(Fim do diário)