O pássaro adivinho

Umas pou­cas con­tas de guar­da­napo tal­vez não lhe per­mi­tam afir­mar cate­go­ri­ca­mente que o mons­tro do Lago Ness era (ou não) um sub­ma­rino U-Boat nazista, mas elas ser­vi­rão de fer­ra­men­tas para que você des­vende alguns mitos popu­la­res de forma ele­gante e inte­li­gente quando for neces­sá­rio. No post de hoje, vamos ana­li­sar cri­te­ri­o­sa­mente o mito do pas­sa­ri­nho que adi­vi­nha quando vem visita em casa. Con­ti­nue…

Como será o fim do mundo?

Agora me digam, gafa­nho­tos, sabem o que é um saco? Digo, meta­fo­ri­ca­mente um saco?

A huma­ni­dade um dia tes­te­mu­nhará de graça o show mais espe­ta­cu­lar da galá­xia. Explo­sões cheias de glit­ter e com dimen­sões cós­mi­cas ocor­re­rão quarta-feira, 27 de março de milha­res de anos futuro aden­tro. Estre­las coli­di­rão e você será ful­mi­nado em cen­ti­lhões de par­tí­cu­las; seu crâ­nio será esma­gado com uma pres­são de 3x10⁸ Hulks enfurecidos/cm²; você e toda a raça humana fatal­mente dei­xa­rão de buli­nar nosso pre­ci­oso pla­ne­ti­nha bio-diversificado e pas­sa­rão a ocu­par o volume de ape­nas alguns átomos cúbi­cos. Essa com­pac­ta­ção extra­or­di­ná­ria acon­te­cerá em não mais que uma fra­ção de segun­dos — bem menos que o tempo neces­sá­rio para seu sis­tema ner­voso inter­pre­tar a cocei­ri­nha cau­sada por um sis­tema solar ter­ná­rio alar­gando suas tri­pas de maneira pouco gentil.

Já que você vai mor­rer boni­ta­mente daqui a alguns milha­res de anos, caso exista mesmo re-encarnação, acho que você tem o direito de saber como isso vai acontecer.

Há uma maneira muito mais exce­lente de dizer se algo está vindo em sua dire­ção ao invés de sim­ples­mente olhar / chei­rar / ouvir um objeto. Este método con­siste em ave­ri­guar se o espec­tro de cores refle­tido ou emi­tido pelo corpo está ten­dendo leve­mente para o azul. Como você pode dedu­zir, se o espec­tro ten­der para o ver­me­lho, sig­ni­fica que ele está se afas­tando. Não acre­dita? Observe os car­ros que se afas­tam de você. Qual a cor da luz que sai das lan­ter­nas tra­sei­ras? Ver­me­lho, como prevê a teoria.

Isso é o Efeito Dop­pler apli­cado à Física de gente grande e é cha­mado de redshift. Per­ceba que quando uma sirene se afasta, sua freqüên­cia vai caindo gra­da­ti­va­mente até se tor­nar aquele miado meio xoxo. É como se o som da sirene fosse, no caso, luz. Por isso as sire­nes as quais você vê se afas­tando são aver­me­lha­das, e não verde-limão.

Este tipo de saca­na­gem cien­tí­fica tam­bém se aplica a cor­pos celes­tes. Dessa maneira, pode-se dizer se uma galá­xia ou sis­tema solar está vindo em nossa dire­ção. ADIVINHEM !! ESTÁ!!!!!!!111

Quem diria, hã, nosso vizi­nho mais pró­ximo, num ímpeto pan­demô­nico de des­trui­ção: Alfa Cen­tauri (α Cen­tauri / α Cen); uma estrela das mais bri­lhan­tes em nosso céu, toda faceira e azul­zi­nha. Esta pilan­tra faz parte da cons­te­la­ção do Cen­tauro, que se parece mais ou menos com isso no céu.


Minha nossa, eu fico oca­si­o­nal­mente estu­pe­fato com meu pró­prio senso de humor.

Isso sig­ni­fica que toda estrela azul no céu está vindo em nossa dire­ção? Oh noes! Sux0r!

Não é bem assim. Às vezes, a pró­pria natu­reza do corpo celeste emite um espec­tro mais azu­lado, como é o caso de algu­mas super­no­vas. O que eu lhe con­tei sobre redshift não é assim tão sim­ples, que pode ser obser­vado a olho nu. A téc­nica, na ver­dade, envolve uma minun­ci­osa aná­lise ins­tru­men­tal de absor­ção espec­tral e uma male­mo­lên­cia toda cheia de mis­té­rio cien­tí­fico, onde astro­fí­si­cos em labo­ra­tó­rios avan­ça­dís­si­mos inves­tem toda suas vidas obser­vando pos­ters de arco-íris.


Ah, a exci­tante rotina dos heróis espectroscopistas…

Se qui­ser saber mais, cli­que aqui e aqui tam­bém — É bom que alguém con­fiá­vel, par exam­ple moi, lhe indi­que links con­fiá­veis com expli­ca­ções reais sobre esses fenô­me­nos astronô­mi­cos, antes que algum luná­tico lhe passe ende­re­ços de sites afir­mando que a ciên­cia está errada, que anti­gos espí­ri­tos de Atlân­tida do Sul fize­ram con­tato e eles dis­se­ram que as estre­las ficam aver­me­lha­das por­que estão se trans­for­mando em cere­jas gigan­tes de um bolo gigante… ah, e que a NASA aco­berta os fatos.

Alfa Cen­tauri com­põe um sis­tema solar ter­ná­rio. Isso sig­ni­fica que o ponto que você vê no céu é tão bri­lhante devido à con­jun­ção muito pró­xima das três estre­las. Este sis­tema se avança em nossa dire­ção a incrí­veis 23 km/s e se encon­tra atu­al­mente a ape­nas 1,34 par­secs. Quanto vale isso? Apro­xi­ma­da­mente 9460000000000 quilô­me­tros ou 9,46 x 10¹⁷ réguas esco­la­res de 30cm.


Ali na fle­cha­zi­nha cor-de-rosa, ó: MORTE CERTA e AGONIZANTE.

Com essa velo­ci­dade e dis­tân­cia rela­tiva, você verá nosso sis­tema solar se cho­cando com outro daqui a… ape­nas 57 mil anos — os espí­ri­tas, budis­tas e hin­duis­tas deve­rão estar cer­tos por apro­xi­ma­da­mente 817 gera­ções sobre a re-encarnação até lá. Supo­nho que as esta­tís­ti­cas e escri­tu­ras pseudo-sagradas pre­ve­jam outras catas­tro­fes para futu­ros mais pró­xi­mos, no entanto, inter­po­lando o pre­sente e nosso des­tino explo­sivo. De qual­quer modo, se eu fosse você, já faria pla­nos fami­li­a­res tendo isso em mente, hein.

Este post teve con­teúdo par­ci­al­mente inú­til, pois foi neces­sá­rio criar o con­texto para, então, expli­car aos lei­to­res mais lei­gos o que é redshift e, con­seqüen­te­mente, a piada da última tiri­nha. Inú­til, pois, como expli­ci­tado no final do texto, não há com o que se pre­o­cu­par (ainda), uma vez que Alfa Cen­tauri só nos alcan­çará em quase 60 milênios.

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Em face das con­si­de­ra­ções ante­ri­o­res, declaro ter­mi­nan­te­mente proi­bido o uso do texto con­tido neste post em pre­ga­ções, mis­sas, sei­tas extra­ter­res­tres, perió­di­cos reli­gi­o­sos ou comu­ni­da­des alar­mis­tas do Orkut. Envie este texto para seus ami­gos, mas se algum deles criar uma comu­ni­dade cha­mada “Alfa Cen­tauri em 2012!!!”, por favor, peça para não cita­rem meu nome. Tenho uma repu­ta­ção a zelar.