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Ateísmo é religião?

April 8th, 2010

Há pou­cos dias, eu estive lendo alguns cons­pi­ra­ci­o­nis­tas céle­bres da blo­gos­fera naci­o­nal e aca­bei desa­ba­fando no Twitter:

twitterpub em Ateísmo é religião?
Estra­nho ima­gi­nar que escre­ver no Twit­ter é como se pro­nun­ciar diante de umas cen­te­nas de pes­soas que ficam olhando cons­tan­te­mente pra você.

Li esta frase há algum tempo mas não me recordo ao certo quem é o autor — tem cara de ser do Daw­kins. O comen­tá­rio reper­cu­tiu e, para minha feli­ci­dade, um lei­tor que nunca havia se pro­nun­ci­ado antes, Sr. Coi­si­nha, ela­bo­rou um bom argu­mento que vai de encon­tro à minha ideia. Inclu­sive, apontou-me a falá­cia do apri­o­rismo den­tro desta “minha frase do Daw­kins” (perdoem-me, mea culpa). Eis aqui seu comen­tá­rio, que sali­ento ser ótimo:
 

Posso suge­rir a pró­xima falá­cia? Falá­cia da pres­su­po­si­ção falsa, você já tem até um exem­plo pronto: “Como dizem, afir­mar que ateísmo é reli­gião seria o mesmo que afir­mar que cal­ví­cie é uma cor de cabelo” (Cafe­tron). Da última vez que eu ví, ateísmo pres­su­pu­nha fé na ine­xis­tên­cia de deu­ses, tente adi­vi­nhar a defi­ni­ção fun­ci­o­nal para reli­gião: “Um sis­tema de cren­ças supor­tado com ardor e/ou fé”, Pres­su­po­si­ções errô­neas: a) ateísmo não neces­sita de fé; b) para ser uma reli­gião é neces­sá­ria a exis­tên­cia de dog­mas. Creio que o mais ade­quado, caso você que­ria con­ser­tar sua ana­lo­gia, seja subs­ti­tuir ateísmo por agnos­ti­cismo empí­rico, já que o estrito denota fé.

 
Por que estou enfa­ti­zando tanto que gos­tei de ser dis­cor­dado? Acon­tece que dis­cor­dar é dife­rente de trol­lar. Todos nós deve­ría­mos nos ale­grar quando um evento des­ses toma forma, pois argu­men­tos con­cre­tos que con­fron­tam nosso ponto de vista são a base para uma dis­cus­são sau­dá­vel e fru­tí­fera para ambos os lados. Além disso, serve de ins­tru­mento para que você reveja se seus con­cei­tos ainda são ade­qua­dos e se há a neces­si­dade de repen­sar sobre um assunto. Você não quer se ater a uma opi­nião cega­mente e viver agar­rado a ele por puro pre­con­ceito para o resto dos seus dias, certo? O que você diria para seus netos?

Como eu gos­tei da brin­ca­deira do Sr. Coi­si­nha, e levando em con­si­de­ra­ção que este blog é meu e tenho pode­res sobre­na­tu­rais sobre ele, vou rever­ter a con­clu­são, baseando-se por seu comen­tá­rio e mos­trando que nele tam­bém há uma falácia.

CONCLUSÃO: Ateísmo é religião.

RAZÃO: Assim como a reli­gião, o ateísmo é um sis­tema de cren­ças supor­tado com ardor e/ou fé.

Con­fesso que nunca pen­sei do seguinte modo, mas — é ver­dade — ateus são cren­tes. Obri­gado, Sr. Coisa, por expan­dir minha visão. Os ateus são cren­tes de que não existe uma força maior por trás dos fenô­me­nos natu­rais (sendo que nada é impos­sí­vel; impro­vá­vel, tal­vez). Por defi­ni­ção, esta é uma ques­tão de fé, pois o ateu tomou uma posi­ção em rela­ção à exis­tên­cia ou não de enti­da­des divi­nas, sem pos­suir evi­dên­cias con­cre­tas que cor­ro­bo­rem sua decisão.

A ausên­cia de evi­dên­cia não é evi­dên­cia da ausência.

Esta posi­ção é dife­rente da posi­ção de um agnós­tico que, por sua vez, não toma posi­ção alguma; ser agnós­tico é sim­ples­mente acei­tar o fato de que não há evi­dên­cias sobre a exis­tên­cia de deu­ses, bem como não há como com­pro­var empi­ri­ca­mente que não exista; a con­clu­são fica em sus­penso até um momento mais oportuno.

Mas a falá­cia no argu­mento do Sr. Coi­si­nha não se rela­ci­ona à fé ateísta, mas à defi­ni­ção de reli­gião per se.

Sua con­clu­são final de que “ateísmo é uma reli­gião” só pode ser ver­da­deira se assu­mir­mos que, para con­se­guir a qua­li­fi­ca­ção de reli­gião, basta ter fé. Esta é a falá­cia do redu­ci­o­nismo[1]. Per­ceba que o con­ceito de reli­gião em si foi sim­pli­fi­cado para um único pré-requisito. Em con­tra­par­tida, consta no dici­o­ná­rio Auré­lio[2] que reli­gião pode ter uma rela­ção nume­rosa de con­cei­tos, como:

  • Crença na exis­tên­cia de uma força ou for­ças sobre­na­tu­rais, considerada(s) como criadora(s) do Uni­verso, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s);
  • A mani­fes­ta­ção de tal crença por meio de dou­trina e ritu­ais pró­prios, que envol­vem, em geral, pre­cei­tos éticos;
  • Reve­rên­cia a coi­sas sagra­das, ou seja, pro­fun­da­mente res­pei­tá­veis, que não podem ser infri­gi­das ou violadas;
  • Qual­quer fili­a­ção a um sis­tema espe­cí­fico de pen­sa­mento ou crença que envolve uma posi­ção filo­só­fica, ética, meta­fí­sica etc.

Den­tre essas, ao meu ver, o con­ceito de ateísmo se enqua­dra tão mal quanto o con­ceito do pró­prio teísmo, pois ambas dis­pen­sam ritu­ais e dou­tri­na­ções por defi­ni­ção — uma pes­soa pode ser teísta e não ter reli­gião, por exem­plo. Per­ceba, então, que o ateísmo se encaixa muito bem somente no último item.

Curi­o­si­dade
Em rela­ção ao pri­meiro item, pre­cisa mesmo haver uma enti­dade divina e con­tro­la­dora para que a reli­gião se con­cre­tize? Você tal­vez se lem­bre do caso inte­res­sante do Budismo. Em algu­mas de suas ver­ten­tes, a idéia de um ser supe­rior que maes­tra o Uni­verso, ou não existe, ou é bem limi­tada[3]. Tais esco­las, que são bem recep­ci­o­na­das no Oci­dente, embora vis­tas erro­ne­a­mente por alguns como nihi­lis­tas, são o cen­tro de gran­des dis­cus­sões sobre como devem ser cha­ma­das: reli­gião ou filo­so­fia de vida?

Por­tanto, como o ateísmo envolve uma crença que defende uma posi­ção filo­só­fica (nega­ção de uma força meta­fí­sica maior), mas não venera o sagrado, tam­pouco envolve dou­tri­nas ou ritu­ais pró­prios (salve comer uma por­ção de fri­tas no boteco com ami­gos e filo­so­far sobre a não-existência dos deu­ses), creio que seria ade­quado clas­si­fi­car ateísmo mais como uma sim­ples “crença” do que como “religião”.

PORÉM: Tudo bem, ateísmo pode não ser uma reli­gião, mas a ana­lo­gia entre ateísmo e cal­ví­cie, pre­vi­a­mente citada por mim no Twit­ter, não deixa de estar errada. Ao fazer a com­pa­ra­ção, foi como dizer que um ateu é aquele que não tem reli­gião, quando, na ver­dade, é pos­sí­vel haver reli­gi­o­sos ateus [4], assim como ateus reli­gi­o­sos[5].

Espero que tenham tirado algum pro­veito deste exem­plo de como raci­o­na­li­zar sobre um dis­curso. Façam como o Sr. Coi­si­nha. Lembrem-se de não ter medo de, por alguns ins­tan­tes, usar os óculos do ponto de vista con­trá­rio, pois como disse Eli­e­zer Yud­kowsky[6]:
 

A segunda vir­tude (da Razão) é a renún­cia. P. C. Hod­gell disse: “O que pode ser des­truído pela ver­dade, que seja”. Não foge de expe­ri­ên­cias que pos­sam des­truir tuas cren­ças. O pen­sa­mento que não podes pen­sar controla-te mais do que os pen­sa­men­tos que dizes em voz alta. Submete-te a pro­vo­ca­ções e testa-te em fogo. Renun­cia a emo­ção que repousa sobre uma crença equi­vo­cada e pro­cura sentir-te ple­na­mente que é a emo­ção que se encaixa aos fatos. Se o ferro se apro­xima do teu rosto, e achas que é quente, e é frio, o Cami­nho se opõe a seu medo. Se o ferro se apro­xima do teu rosto, e achas que é frio, e é quente, o Cami­nho se opõe à tua calma. Ava­lia as tuas cren­ças pri­meiro e só depois chega às tuas emo­ções. Deixa-te dizer: “Se o ferro está quente, eu desejo acre­di­tar que é quente, e se for frio, e desejo acre­di­tar que é frio”. Não te apega a cren­ças que não podes querer.

 
E depois vêm me falar que cien­tis­tas não sabem enter­rar ser român­ti­cos. E mais uma vez: acalmem-se. O resul­tado daquela pes­quisa com núme­ros não foi esque­cido, nem a con­ti­nu­a­ção do Falaciorum.

Bei­gos,
Cafetron.

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Refe­rên­cias:
  1. Wiki­pe­dia con­tri­bu­tors. “Gre­edy reduc­ti­o­nism.” Wiki­pe­dia, The Free Ency­clo­pe­dia. 28 Jan. 2010. Web. 5 Apr. 2010. []
  2. Fer­reira, Aurélio. Novo dicionário Aurélio da lín­gua por­tu­guesa. 1st ed. Rio de Janeiro: Edi­tora Nova Fron­teira, 1987. []
  3. Cline, Aus­tin. “Buddhism and Atheism.” About.com: Agnos­ti­cism / Atheism. 28 Nov. 2005. 05 Apr. 2010. []
  4. Cline, Aus­tin. “Are there Any Atheis­tic Reli­gi­ons? Can an Atheist Be Part of Any Reli­gion?” About.com: Agnos­ti­cism / Atheism. 06 Apr. 2010. []
  5. Hor­gan, Lara. “The Reli­gi­ous Atheist.” Sha­des of Sen­ti­ence. 17 Nov. 2009. 06 Apr. 2010 []
  6. Yud­kowsky, Eli­e­zer S. “Twelve Vir­tues of Rati­o­na­lity.” Yudkowsky.net. 08 Apr. 2010. []

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Homenagem a Glauco Villas Boas

March 12th, 2010

glauco em Homenagem a Glauco Villas Boas

A polí­cia sus­pei­tava de assalto. Em seguida, sol­ta­ram uma outra ver­são: um dos car­tu­nis­tas mais pro­lí­fi­cos do Bra­sil estava com o filho em seu apar­ta­mento quando foi ren­dido por um adepto sui­cida da Igreja do Santo Daime que pen­sava ser Jesus Cristo. Ao fazê-lo mudar de ideia, pai e filho toma­ram um tiro cada um. E deu certo! — o sui­cida mudou de ideia e fugiu. Con­clu­são: chá de cipó alu­ci­nó­geno e armas de fogo são uma pés­sima idéia.

Soa como enredo para uma tiri­nha ácida do Glauco, mas a rea­li­dade nos acer­tou crua e fria como um bife na cara, dei­xando uma horda de fãs entris­te­ci­dos nesta semana. Ape­sar da minha revolta, creio que não seria justo da minha parte afir­mar que a reli­gião fez mais uma vítima. O assas­sino pode­ria estar sob delí­rio indu­zido por uma subs­tân­cia con­si­de­rada sagrada, mas aposto que estava bem lúcido quando nego­ciou uma arma; pode­ria pen­sar ser o Flash­man, ao invés de achar que era a rein­car­na­ção de Jesus Cristo. O pró­prio Glauco era dai­mista e tal fato, segundo ele, fazia dele uma pes­soa melhor e feliz.

Glauco,
Nós, fãs, esta­mos aqui rindo… de saudades.

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Comportamento, Imagens, Tirinhas

Papo para bovinos dormirem

March 6th, 2010

colchoes em Papo para bovinos dormirem

Diário de bordo, data gre­go­ri­ana: sexta-feira à noite em casa.

Àque­les que não desis­ti­ram do velho Coffe aqui, que não tira­ram os olhos do hori­zonte e não dele­te­ram de seus rea­ders este humilde feed que vos recheia quase-semanalmente: obri­gado, vocês mere­cem uma estre­li­nha do Mario. Aos outros — que não depo­si­ta­ram um pingo de fé na sobre­vi­vên­cia do blog — espero que tenham crise de solu­ços durante um pon farr.

“Férias” uma ova de pás­coa; meu expe­di­ente se ras­te­jou até dia 23 de dezem­bro e, a par­tir do ime­di­ato fim da semana de recesso cor­po­ra­tivo, tenho ras­te­jado pelo labo­ra­tó­rio desde o desa­bro­char de janeiro. Eis o motivo de minha ausên­cia pro­lon­gada. Ainda não me recu­pe­rei por com­pleto, nos horá­rios de almoço e janta estou ten­tando me rea­bi­li­tar na pro­cras­ti­na­ção criativa.

Mas não importa! O site está de volta com aquele mojo de sem­pre. Neste meio-tempo recebi mui­tas pala­vras de apoio e cari­nho, ago­nia e deses­pero; e tam­bém um punhado de per­gun­tas intri­gan­tes pelo for­mu­lá­rio de Acon­se­lha­mento Online, tais como “gosto do Fla­vi­nho, como fas/?”, “keria saber como faser dor­gas em casa” e — a mais dífi­cil até agora — “bauru sem tomate é misto?”. Ao autor desta per­gunta, faço de sua inter­ro­ga­ção a minha, pois tam­bém não sei.

Não menos­pre­zando todas essas dúvi­das, mas tan­tas soma­das não batem a incógnita-mór: o que há de errado com os ven­de­do­res de col­chões?! Parti hoje à pro­cura de um col­chão novo e assisti a um des­file de loro­tas ale­gó­ri­cas ensi­na­das por, pro­va­vel­mente, os pró­prios fabri­can­tes. Fala-se entre o con­clave cien­tí­fico de Hollywood que os fil­mes de fic­ção deve­riam se ater a, no máximo, uma gafe cien­tí­fica por filme. Sugiro a impor­ta­ção dessa idéia para as lojas de cama, mesa & banho:

“Col­chões que neu­tra­li­zam sua ele­tri­ci­dade”?
Só se o ter­ceiro pino da tomada da cama esti­ver aterrado.

“Íons de prata para evi­tar a trans­pi­ra­ção”?
Para evi­tar fun­gos, tal­vez, mas nem mesmo o Sur­fista Pra­te­ado deve ser livre dos deso­do­ran­tes prateados.

E, por fim, um col­chão feito com o mesmo mate­rial da roupa selada de um astro­nauta pos­si­vel­mente o mata­ria, já que a espuma de poliu­re­tano visco-elástico — ou “mate­rial gos­to­si­nho dos infer­nos” real­mente inven­tado pela NASA para acol­cho­a­dos em aero­na­ves — exige tan­tos retardantes-de-chama na com­po­si­ção que o con­tato pro­lon­gado pode cau­sar pro­ble­mas res­pi­ra­tó­rios a longo prazo.

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Ciência & Tecnologia, Comportamento, Tirinhas

O Handbook Sagrado

November 9th, 2009
handbook em O Handbook Sagrado

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Sinceridade

September 18th, 2009
sinceridade em Sinceridade

Porque nada é mais agra­dá­vel que incor­po­rar o Mas­ter of Obvi­ous logo ao amanhecer.

Fazia tempo que esta tiri­nha estava enga­tada, mas fiquei com uma pre­guiça ensur­de­ce­dora e não a fina­li­zei. Além disso, tive uma decep­ção auto-intelectual quando me fal­tou idéias enquanto ela­bo­rava uma tiri­nha onde o ED-209 e o HAL9000 dis­cu­tiam sobre reli­gião. Aí man­dei tudo para o raio que o parta e fui ler meu livro sobre jar­di­na­gem de guer­ri­lha nas horas vagas. Acre­di­tem, é emo­ci­o­nante saber como cons­truir bom­bas de semente e irri­ga­ções táti­cas. Per­dão pelo tempo pro­lon­gado sem tiri­nhas ou res­mun­gos no blog.

E por falar em sin­ce­ri­dade acima de tudo, fico humil­de­mente agra­de­cido pelas apro­xi­ma­da­mente 700 cli­ca­das no post em que pedi vossa ajuda. Sabe como é: vocês rochas (rocks)! Infe­liz­mente o post onde o resul­tado deste expe­ri­mento será usado está levando mais tempo do que eu espe­rava para ficar pronto, mas menos tempo do que o expe­ri­men­tado para pron­ta­mente desis­tir de esperar.

:)

Semana que vem, amigos.

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