Efeitos pós-monografia e desabafos
Um curto desabafo de como duas semanas sob uma pilha de livros e longe da civilização abriu minha perspectiva de mundo. Este post trata sobre amor, ódio, pessoas equilibrando objetos na cabeça e ornitorrincos.
Olá, estimados leitores.
Como alguns de vocês já estiveram a par, concluí minha monografia há exatamente 24 horas. Ela tem parte no meu curso de Física como um pré-requisito para concluir a graduação. Comumente, pessoas mortais têm um ano inteiro para trabalhar o tema, enquanto deuses, semi-deuses, sumo-sacerdotes, sibilas e criaturas mitológicas dispõem de duas semanas bem curtas. Pessoas que fizeram estágio em escolas públicas e duas faculdades simultaneamente, durante o ano todo, também se enquadram nessa categoria: entre semi-deuses e criaturas mitológicas. Durante esses 15 dias fatídicos, erguendo parágrafo após parágrafo de um assunto com o qual eu não estava familiarizado, até completar 80 páginas, percebi peculiaridades mundanas que gostaria de compartilhar com vocês.
Em primeiro lugar, gostaria de fazer algumas considerações sobre a maneira como costumamos viver — eu, você e qualquer outra pessoa em estado não-vegetativo. Expressar essa idéia vai ser bastante difícil, então preste atenção. Freqüentemente adotamos um modo de viver nossas vidas muito parecido com o transe hipnótico. No Oriente chamam esse estado de samsara. A grosso modo, o termo em sânscrito significa fazer suas tarefas diárias, completar suas rotinas mundanas e não dar a mínima atenção para os detalhes à sua volta; não prestando atenção no aqui e no agora (nada místico: apenas o presente), deixando a vida passar batida. Onde eu quero chegar, de fato, é que a Internet fode com sua vida e contribui amplamente com o samsara.
“UAU! Descobriu que o modelo do orbital atômico de Schrödinger só é coerente com o conceito de spin”. Pode parecer óbvio para uns, besteira para outros, mas em ambos os casos a pessoa imersa nesse estado de consciência não percebe que ela é prisioneira do à toa. Eu não havia notado — e talvez nunca notaria — se não tivesse me afastado do loop infinito que é Orkut <-> Gmail <-> messenger <-> fóruns <-> leitor de feeds <-> Twitter <-> comentários no blog.
Quando pude me isolar do mundo e conseguir paz, no meio do mato e longe da civilização, percebi que informação em excesso emburrece o indivíduo. Informação inútil, devo salientar (desculpe, pessoas, mas devem concordar comigo que 99,5% dos scraps, e-mails, posts em fóruns, mensagens no MSN e no Twitter são satisfatoriamente respondidas com um “ah, é? foda-se”). Essa hipótese é corroborada pela notícia recente que saiu na Folha Online: E-mail é mais prejudicial a QI do que maconha, diz estudo.
Agora vem a grande sacada: informação de menos também prejudica. Caso contrário, vizinhas sedentárias e obesas que assitem a novelas o tempo todo seriam sábias pensadoras capazes de atirar frases profundas, e não somente perguntar “se hoje vai chover” quando topa com você na calçada. Permanecer em contato com a natureza lendo Aristóteles, filósofos muçulmanos, Einstein e tomos antigos de Ciências abriram minha mente e passei a enxergar o mundo muito mais claramente. Acreditem, o saber liberta mesmo e ainda previne Alzheimer.
Em segundo lugar, quero fazer uma rápida abordagem sobre o pensamento crítico. Sempre fui uma pessoa de mente bastante aberta — nada de errado ou incomum. Para concluir minha monografia, já que ela tratava de um aspecto mais dissertativo da Física, tive que re-treinar a racionalidade além da manipulação de números. Analisando friamente o mundo à nossa volta, façamos algumas perguntas úteis para aguçar o pensamento crítico, no melhor estilo “Um Mundo Assombrado por Demônios” do Carl Sagan.
i. Se discos voadores freqüentemente visitam o planeta Terra, por que eles nunca foram vistos e reportados por nenhum dos centenas de milhares de astrônomos, profissionais ou amadores, sendo que eles são as pessoas que mais observam o céu à noite?
ii. Por que em regressões (induções hipnóticas para descobrir o que as pessoas foram em encarnações passadas) os pacientes sempre foram mártires ou figuras importantes, e nunca pessoas comuns que tiveram vida e morte normais?
iii. Por que as pessoas dizem sentir a presença de Deus e dos anjos somente quando estão em grupo, se exercitando, gritando e em estado psicológico notavelmente alterado, e nunca sozinhas, quietas e sentadas de olhos fechados?
iv. Se Atlântida foi um continente que afundou há 10.000−100.000 anos entre a Europa e a América, por que os mapas da topografia oceânica indicam que de maneira alguma pode ter havido um continente ali há tão curto intervalo de tempo?
v. Se há 2000 anos um homem caminhou sobre as águas, transformou água em vinho, multiplicou comida e ressucitou um morto, por que nenhum historiador da época escreveu sobre esses eventos?
vi. Por que videntes de bem, mas que cobram pelo serviço, não simplesmente prevêem os resultados de loterias ou corridas de cavalos, acumulam uma pequena fortuna para sustento próprio, e passam a fazer as consultas gratuitamente?
vii. Por que os e-mails e notícias fantásticas, quase miraculosas, que lemos freqüentemente, sempre carecem de uma fonte segura (e de vez em quando até os nomes das pessoas envolvidas), se são tão bombásticos?
viii. No bestseller “O Segredo”, é salientado que se uma pessoa desejar imensamente algo, aquilo será atraído para ela. O que aconteceria se todas as pessoas do mundo desejassem ser ricas?
O interessante de fazer essas perguntas a si mesmo é que ao final da reflexão você conclui que elas não esclarecidamente desprovam a existência ou ocorrência dessas coisas, mas desbancam muitas charlatanices e ajudam a preveni-lo contra futuras metralhadas de bullshit a esmo. Também forçam você a pensar um pouco por conta própria e não acreditar em tudo que dizem. Além disso, ela está intimamente ligada com minha primeira abordagem; o que importa é você desenvolver o espírito investigativo que anseia por saber. Aqui segue uma tradição oral islâmica (haddith) que li há alguns dias que é entusiasmante:
“(…) O brilho de um homem culto comparado àquele de um simples crente é como o brilho da lua comparado ao das estrelas (…) Obtenha conhecimento; a pessoa que o detém distingüe o certo do errado; ele aponta o caminho para o Céu; ele nos faz companhia no deserto e na solidão, e quando nos encontramos sem amizades; ele é nosso guia para a felicidade; ele nos dá força na miséria; ele é um ornamento aos amigos, proteção contra os inimigos (…) O nanquim de um sábio é mais sagrado que o sangue de um mártir (…)”.
Caramba, aposto que ouvir isso em pleno século VI d.C. deveria ser como um balde refrescante de lucidez com menta.
Vou ficando por aqui. Portanto, amigos, lembrem-se do recado: leiam mais livros, fiquem longe do computador se não tiverem nada de útil pra fazer, comam verduras e quando te disserem algo fantástico, exija também provas fantásticas. Façam disso um novo modo de vida e verão como a realidade parecerá mais clara. E tratem imediatamentem de viver o agora e parem de empurrar suas vidas com a barriga. E não comam muita gordura. Esse é o sentido da vida. Ah, e se virem uma taturana verde com galhinhos pelo corpo, não encostem nela — pode arder um pouco.
Este foi um post introspectivo com um certo quê de erudicidade e filosofia. Em breve voltaremos com nossas atividades normais, assim que terminar de ler as 78 mensagens não verificadas na caixa de e-mails.
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“tradição ORAL islâmica que LI…” soou meio estranho. Mas eu entendi. :)
hehehe
Cara, na boa… melhor post seu até hoje.
Já leu “Sidharta”, de Hermann Hesse?
Matrix é muito mais popular que este livro no quesito “tudo é ilusão e blábláblá there is no spoon”. Mas diferentemente do filme, na obra de Hesse existe uma “demonstração” bem mais crível do que é o samsara.
Eu concordo, melhor post.
E Sidharta deveria ser um livro obrigatório nas escolinhas, substituindo “Capitães de Areia”, que ensina como ser um estuprador.
Mas eu mesma ainda não li :D
Pretendo ler ainda este ano.
Nossa, Sidarta é foda pra caralho
Hermann Hesse é foda pra caralho
Adoro demais os livros dele.
Adorei(II) o post, vai me fazer eu terminar o livro que to a um mês
O mal das décadas passadas pode ter sido a TV, mas hoje em dia é a Internet, e é fato :o
No momento que li a palavra Samsaram pensei “Hermann Hesse, Sidharta”.
Hesse é muito bom, recomendo muito, principalmente “Sidharta” e “O Lobo da Estepe”.
Eba! Se não me engano, tenho esses dois.
Também tenho os dois livros do Hesse. To para comprar outros, quando tiver dinheiro.
Falou de “Um mundo assombrado pelos demônios” e de pensamento crítico? Caramba, ganhaste 10 pontos no meu conceito. Li esse livro quando tinha 17 anos e acho que está na hora de ler de novo. Acho que todo mundo deveria lê-lo, especialmente os que se propuserem a ser cientistas.
“Bilhões e bilhões” também é muito bom. Se ainda não leste, recomendo fortemente.
Ahhhh aí eu gostei!! E amei os exemplos de questionamentos que devemos carregar, nos livrando de crenças cegas e sem fundamentos.
Mas tenho algo a dizer sobre o número 2 (não o cocô): em uma regressão que fiz em que conheci uma vida passada, eu não passava de uma ajudante de uma madame, e que a ajudava a cuidar de seu filho autista. Não fui um mártir, tampouco alguém famoso! hehehe
“v. Se há 2000 anos um homem caminhou sobre as águas, transformou água em vinho, multiplicou comida e ressucitou um morto, por que nenhum historiador da época escreveu sobre esses eventos?”
*meio sério* Essa eu sei! Na época não haviam historiadores! Será? Na verdade os judeus que tinham essa mania de escrever a própria história e passar para a frente. Não era uma época/lugar de preocupações com o futuro, efeito estufa, etc.
“vi. Por que videntes de bem, mas que cobram pelo serviço, não simplesmente prevêem os resultados de loterias ou corridas de cavalos, acumulam uma pequena fortuna para sustento próprio, e passam a fazer as consultas gratuitamente?”
*meio pensativo* Duas respostas: As pessoas querem acreditar, alimentar a esperança delas é tiro na mosca. E além disso há geralmente certa dificuldade em perceber o óbvio, ou pelo menos em depositar confiança nele se ninguém depositar antes.
“viii. No bestseller “O Segredo”, é salientado que se uma pessoa desejar imensamente algo, aquilo será atraído para ela. O que aconteceria se todas as pessoas do mundo desejassem ser ricas?”
*meio cômico* Se você desejar, a tal ponto que torna isto uma necessidade iminente, tão iminente que seu corpo e mente se levantam, movem e ignoram o cansaço e frustração, então há boas chances da atração ocorrer. É só imaginar que você é o referencial em repouso.
Talvez isso guie um pouco quem busca esclarecimento em uma etapa inicial:
http://www.giantitp.com/comics/oots0606.html
Agora vão em paz e que deus os acompanhe!
Quando fiz minha monografia em eras passadas, eu virei um estatístico por vários dias, foi agradável. :)
Humm.
profundo.
Olá, primeira vez no seu blog.
Esse post diz tudo o que sinto depois de um ano de faculdade. E o pior é que penso, todo dia “quanto tempo eu perco na internet” mas falta uma motivação para mudar. Só discordo da sugestão de ler demais. Ler é bom, mas SÓ ler limita pensamentos originais =)
Ah! Que bom encontrar mais pessoas que acham O Segredo uma palhaçada!
Uau, ótimo post! Parabéns por sobreviver à monografia, e lembre-se: aquilo que não nos mata, nos dá XP. Quanto à internet e o samsara: tudo que é em excesso fode contigo, e a internet não é exceção. O problema é que a gente tá SEMPRE procurando um jeito de esquecer da vida: tem gente que se vicia em internet, tem gente que não para de trabalhar, tem gente que se muda pra Santa Rita da PQP e se isola do universo…tem infinitos jeitos de deixar o aqui e agora pra mais tarde. É por isso que aqueles monges budistas safadinhos vivem meditando: não pra fugir, mas pra forçar suas mentes a aceitar que só existe o aqui e agora.
Ótimas as perguntas também, mas nem vou entrar nelas senão o comentário fica com umas três páginas :~. Só respondendo a pergunta ii) Porque, pô, o cidadão paga os olhos da cara pra fazer regressão, e aí o hipnotizador vira e conta pra ela a verdade: ela foi um mendigo maluco no interior do zimbábue, carinhosamente apelidado de “Come-cocô” pelas crianças do local, que se divertiam jogando pedras e (claro) cocô no pobre mendigo. O hipnotizador ia falir rapidinho =\
tem razão! =P
um dia quero ver qual a minha vida regressa =p
e não ia gostar de descobrir que não fui nada.
tipo o figurante cujo nome aparece como “guy killed #3″ em fonte arial 6 no fim dos creditos no lado direito.
pode anexar aos TOP..
seria ótimo um blog mais *assim*
(uma espécie de “blogescola do pensamento“[?], caro prof.!)
=]
@ Sofie: voce vai adorar a blogsfera nerd ;D
Eh isso ai coffe! Continue escrevendo textos informativos e reflexivos como esse. So nao garanto que os leitores nao sairao na porrada por causa da polemica. hehe…
E agora que acabou a monografia? o que vai fazer da vida?
Sei lá, acho que catalogar taturanas.
“Ah, e se virem uma taturana verde com galhinhos pelo corpo, não encostem nela — pode arder um pouco.”
Eu vi uma dessas ante ontem e tirei uma foto devido a originalidade da taturana! hehea
Eu fazia de coleção de taturanas fofinhas peludas e coloridas quando era um pequeno pimpolho, pena que elas secavam e desbrugavam e sempre ficavam feias após algum tempo =/
“O brilho de um homem culto comparado àquele de um simples crente é como o brilho da lua comparado ao das estrelas”
Mas, mas… :(
Adorei…principalmente a tópico sobre ornitorrincos…
Adorei…principalmente a tópico sobre ornitorrincos… [2]
IRMÃAAAAAAAAAAAA
Ou irmão
òtimo Post, mas sobre a hipótese 1. tua, não é toda hora que naves aparecem por ai, tanto que as vezes são pegas imagens de Naves extraterrestres e etc.
Sobre aquela de Jesus e etc, acho que não haviam muitos historiadores na época principalmente no oriente médio,mas dizem que os próprios apóstolos de Jesus registraram tudo????? Mesmo assim,bou utilizar esse argumento com o meu professor de religião, ele vai ficar puto comigo! =D
Carl Sagan é o professor da lucidez para o pessoal do misticismo.
E os seus livros nunca me fizeram não crer no espírito, ao contrário, transbordam fé.
E respondendo à oitava pergunta.
desejar algo, sim, ajuda a obter aquilo que busca. e nem precisa falar sobre ocultismo e etc. na explicação, não se faz necessário ir mais longe do que o subconsciente e a forma que você passa a enxergar os padrões no seu cotidiano.
o problema é: há uma diferença entre apenas desejar e desejar-agir. E também não pense que desejar-agir é investir na bolsa ou algo do gênero (no caso de você desejar ser rico).
hasuhasuahsuassahuas
faz me lembrar dos “semeadores da discordia” do Kid…
ta estressado chefe?
Sabe que não sei o que é pior: Refletir após ler este post ou refletir sobre o fato de ter que refletir novamente após ler este post.
Mas confesso que meu período na Rússia sem Internet foi absurdamente produtivo. Tirei pelo menos uns três filmes (que estavam empoeirando meu HD) da minha lista de “tenho-que-ver-urgentemente”.
Ainda estou no segundo semestre da faculdade de matemática e não faço idéia de como deve ser uma monografia de matemática.
Gostei muito do seu post. Aliás, é o post mais sério e culto que já li neste blog. Uma das partes mais interessantes que vc falou foi sobre a Internet. Eu amo Internet, mas devo admitir que o que não falta nela é lixo. Muitos dos e-mails,chats , scraps e comunidades que vc vê por aí estão recheadas de bobagens que “emburrecem” o indivíduo. Mas a Internet também é útil como meio de comunicação e uma poderosa ferramenta de obtenção de conhecimentos. A humanidade, com certeza, cresceria muito mais se priorizasse coisas realmente importantes para o seu desempenho intelectual e humano do que ler e ver banalidades que levam do nada para lugar nenhum.
O que eu quero dizer é que, o culpado de tudo isso não é a internet em si, mas o próprio ser humano que não sabe utilizar corretamente as ferramentas que possui. Não me refiro a maioria, mas a grande massa. É como o que um colega meu sempre dizia: “A humanidade está à caminho da própria extinção”.
Perdoe a linguagem, mas:
–Caralho cara, post massa da porra!
Eu já pensei muitas vezes, muitas mesmo, sobre tudo aquilo que tu falou lá em cima, e posso dizer que cheguei a conclusões muito parecidas com as tuas. É bom saber ainda existem pessoas racionais nesse planetinha azul.
flws, vou alí ler um livro de física…
periodo na Russia? han?
incivel modo de pensar, gsotaria também de ficar sozinho com minha mente frente a frente em um lugar isoldado, muita viaje… minha familia me internaria num hospicio, já me chamaram de doido por ter comprado um telescopio ahah, exelente o topico apenas sobre o fato dos discos voadores penso o seguinte:
acredito que a maioria dos astronomos nao reportar tal noticia para nao se comprometerem pq muitas pessoas acham que é coisa de louco acreditar em disco voadores, dai surgiram ufos e ovnis, obejtos voadores nao identificados, que se torna um jeito de nao se comprometerem, apenas dizendo que é algo nao identificado e sem explicação. existem varios videos e fotos de astronomos e astronautas sobre ufos.
acreditarei mais quando ver algum, ja vi 2 ufos e como o nome diz nao identificado, por isso comprei um telescopio pra ver de perto e saber o que é realmente e sim poder acreditar.
Esse post passa um tantinho da sensação que tenho ao ler Carl Sagan: Não podia concordar mais. Talvez pela referência direta e tudo isso…hehe
eu acredito sim nisso cara eu ajo que e verdade sim