Segunda Estrela à Esquerda
Isto é post antigo aprimorado, um rascunho de uma futura obra magnífica (livro), que posto hoje para receber uma avaliação prévia sua. Se você o recebeu não sendo por minhas mãos, saiba que este evento nunca deveria ter ocorrido, a pessoa que lhe enviou o arquivo, neste momento, já está sufocando com o próprio suco gástrico. Para você, amigo(a), seu cachorro implodirá feito uma estrela de nêutrons, sua namorada(o) te trairá com o corpo de bombeiros inteiro e sua mãe vai te abandonar SE E SOMENTE SE VOCÊ NÃO PARAR DE LER NESTE EXATO INSTANTE. Obrigado.
Capítulo 10
As antenas estavam prontas e todo o equipamento estava em ordem. O plano estava traçado para que a nave de pesquisa estacionasse na órbita durante o próximo ciclo. Velotris, Carminus e o restante da tripulação por fim terminaram a última análise dos parâmetros da conexão com o terceiro planeta daquele sistema solar.
Talvez tal fato valesse a promoção que tanto almejavam: Membros Honorários do Conselho. Tal condecoração é somente concedida àqueles que se investem de corpo e alma em prol do bem-estar universal ou, mais recentemente, àqueles que se dispõem a comer uma quota mínima de 68 litros de catupiry arcturiano em rede intergaláctica de televisão.
Treinar a mente para os padrões intelectuais da Terra, como os seres inteligentes daquele planeta denominavam PA-993, não era afinal a tarefa mais ardilosa. O primeiro contato com este planeta dependeria da capacidade de se expressar de Carminus e da geniosidade de Velotris para conectá-lo ao principal meio de comunicação naquele astro: uma teia global de ondas eletromagnéticas gerada pelos próprios terráqueos. Era uma espécie de Internet, bem conhecida pelos pesquisadores durante finais de semana. Porém, esta aqui era infinitamente rudimentar e sem gulfiats[1] .
[1] Gulfiats são dispositivos psicotrônicos instalados nos rins dos usuários e que, diferente dos ukkewahs, não têm vöds nos auto-yummenots, ou seja, sem graça alguma.
A missão contava com sondas espiãs de alta tecnologia que poderiam sugerir pistas sobre onde poderiam infiltrar-se na rede.
Estas sondas podem a qualquer instante camuflar-se de discos voadores, coloridos ou monocromáticos, triangulares ou redondos, para que possam voar despercebidas enquanto sondam os hábitos terráqueos.
A partir dos dados coletados ao vivo enquanto as sondas realizavam vôos de rotina sobre as cidades, concluiu-se que os terráqueos constantemente mantêm suas cabeças jogadas para trás, olhando todos para os céus com as bocas semi-abertas e os dedos indicadores apontados para algo inimaginavelmente incrível. Entre outros estudos, destaca-se também a afeição ímpar que os terráqueos têm por pufes de sentar, por cheiro de gasolina e pelo ruído de grampeadores.
Carminus e Velotris chegaram a um consenso quanto à região para o primeiro contato através de um método de escolha simultaneamente lógico e sensato, duas qualidades antagônicas que comumente não caberiam na mesma frase. Não neste Universo.
A fonte com maior densidade comunicativa vinha de um local do globo chamado Brasil, onde curiosamente há poucos ciclos não havia sequer uma manifestação daquela rudimentar Internet. Talvez por algum motivo estratégico a fonte intelectual do planeta tivesse se mudado para aquele hemisfério na última década.
A dupla de pesquisadores concentrou todos seus esforços, a partir dessa conclusão, para aprender e compreender a linguagem utilizada pelos seres dali. Felizmente havia acesso a infinitos trabalhos escritos por humanos nesta língua tão complexa. Camões, Fernandes, Bandeira, Rosa. Com uma linguagem tão bem planejada e afiada, obviamente este planeta estaria preparado para um contato interplanetário.
Tempos após preparativos e ensaios incontáveis, havia chegado finalmente o dia importantíssimo. O primeiro contato com o povo da Terra se tornaria uma deliciosa e recompensante realidade. Velotris ligou o equipamento e instantaneamente luzes se acenderam por todo o painel. Alguns piscares depois, ele acena para Carminus como se estivesse de volta à infância e seu pai estivesse passando em frente à loja de pirulitos venusianos musicais. Carminus então começa o envio da primeira mensagem de boas vindas a um horizonte mais amplo para aqueles seres.
– Saudações, povo da Terra! — digitou rapidamente Carminus em um teclado ovalado. — Eu vos saúdo em nome de toda a Galáxia habitada.
Os nervos de ambos estavam aflorados e latejando. Os segundos seguintes de espera correram tão lentamente, que seria possível assistir a um próton e um anti-próton caminharem um em direção ao outro, trocarem elogios, encantarem-se um pelo outro, namorarem, pensarem em como encontrar a alma gêmea era maravilhoso, pensarem em como um casamento seria maravilhoso, desentenderem-se quanto à cor do carpete da futura casa (e como isso não era tão maravilhoso), desentenderem-se quanto às colegas de trabalho do próton (e isso definitivamente não era nem um pouco maravilhoso), desentenderem-se quanto à divisão de bens nucleares durante o processo de divórcio e finalmente, como ocorre com todos os casais divorciados do Universo, destruirem-se em milhões de partículas sub-atômicas. De qualquer forma, assim como tudo neste Universo, o momento infinito de espera finalmente chegava a um fim.
Capítulo 11
A idéia de um período de tempo sem fim que eventualmente termina, como ocorreu dentro da nave de Carminus e Velotris, viria a ser o alicerce de uma revolução nos ramos da lingüística, como também da neofísica e principalmente da culinária – os legumes poderiam ser cozidos para todo o sempre e serem servidos alguns instantes depois de irem ao fogo.
Max Caneca, estudante de Física frustrado com a graduação e que agora trabalhava como segundo copeiro da nave e servia café descafeinado no instante em que o período de espera sem fim acabava, mantinha um blog durante os finais de semana. Ele, que estava a par de toda a situação, concluiu na primeira oportunidade longe de seu turno uma entrada entitulada “Um vórtice do contínuo espaço-temporal”. Este texto, contudo, não foi lido por mais que meia dúzia de seres inteligentes.
A revolução ideológica importantíssima que mudou a mente de muitos começou a partir de uma nova entrada no blog concluída três semanas depois, entitulada “Droga de mundo, meu pudim queimou”, que levou milhares a cometerem suicídio devido à queda das ações das companhias de despertadores de cozinha no quadrante daquela galáxia
Capítulo 12
Como tudo indicava, o primeiro terráqueo começava a digitar meticulosamente sua resposta. A tensão chegava a níveis insuportáveis. O sistema indicou subitamente que o terráqueo parou de escrever e em uma questão de segundos sua mensagem brilharia na tela de todos os computadores da nave.
– RSRS OI GATA BLZ???? VC EH MULHER?????? – digitou um terráqueo conectado à rede sob a identificação de “BONITAO-16”.
Carminus olha para Velotris com um rosto em tal formato de ponto de interrogação, que faria inveja aos mais respeitáveis ganchos de parede. “Talvez o sinal estivesse truncado” pensou, e tornou a repetir o procedimento desde o começo.
– Saudações, povo da Terra! Eu vos saúdo em nome de toda a Galáxia habitada – digitou Carminus com a mão direita, enquanto tentava segurar as esperanças com a esquerda.
– sjkhskdhk HiHiHi bobinhows – respondeu outro terráqueo, este com o nome de “SrTa-AmAnDa”,
- Desculpe-nos, terráqueo. Aparentemente a comunicação está falha.
- haoiu é o lag e tal Xd speedi sux TT – tornou a falar BONITAO-16, o terráqueo anterior
- Sua transmissão – prosseguiu Carminus digitando angustiosamente — não está sendo recebida em integridade por nossos aparelhos. Não obstante, esperamos que possam nos ler. Estamos aqui estabelecendo este primeiro contato com seu povo para transmitir uma mensagem de paz e uma amistosa troca de tecnologia.
- stfu kraio – respondeu prontamente um terceiro terráqueo daquele nó eletromagnético, entitulado “spacecrucher with lazers” — tipo fassam o favor de ban plizzz newbiess aff
- flood – afirmou um quarto terráqueo, cujo nome não importava mais a essa altura.
Nesta última mensagem, uma imagem de um ser humano em uma pose muito estúpida para os padrões de Carminus acabava de surgir, com uma seqüência de letras garrafais em vermelho: “Noobs. They’re all over the internets”.
Talvez as pesquisas feitas durante todas suas vidas dedicadas à ciência, ao bem-estar universal, às suas mães e ao merecimento de uma cadeira no Conselho estivessem erradas, e agora esta idéia assombrosa tornava-se tangível.
Língua complexa? Português? Era muito pior do que imaginavam. Aparentemente, a linguagem era dinâmica e mutava de ser para ser, e inexplicavelmente se entendiam. Inacreditável! Do que estariam falando?
- Estamos admirados com a linguagem superior que estão utilizando. — digitou Carminus respirando bem fundo — Espero que entendam que a língua ultrapassada e arcaica que aprendemos é resultado de pouca interatividade com a sua complexa cultura e mentalidade. Creio que, mesmo assim, com uma mente tão trabalhada, possam nos entender. Digam-me, seu povo está a par da tecnologia de viagens espaciais? Em caso afirmativo, por que ainda não as fizeram?
- sei al kra – entoou um dos terráqueos cujo nome definitivamente não interessava mais – seria intereçante se tivese algum tipow de portal então alguem mandava um robo pro espaço dai deixava ele cônstruindo o portal do otro lado enquanto isso aqui ja estava pronto o portal ;p mas e claro que pra isso e presizomuita tecnoligia vai demora talvez algums vivam para ver e outros não mas “E a Vida”
Indecifrável. Parecia que anos de pesquisa “foram por água abaixo”, como os humanos costumavam dizer, ou ao menos era o que Carminus e Velotris pensavam que diziam. Em um último ímpeto de estabelecer comunicação com estes seres infinitamente inteligentes, Carminus pede encarecidamente que as pessoas daquele ponto de manifestação virtual falassem no “português obsoleto”, para que pudessem ser entendidos.
- Em primero lugar posso escreve do jeito que eu quero – retrucou o terráqueo irritadiço – estamos numa democraçia e cada um tem sua opinião e sobre os portais tnho serteza q ainda vao inventar e nao e fake vái toma no cú
Com um pesar no rosto flácido e redondo, Velotris aciona o botão da propulsão da nave. Em alguns momentos estariam de volta à constelação de Lyra e teriam momento suficiente na viagem para refletir onde erraram. O planeta Terra está em um estado muito mais elevado do que imaginavam.
A promoção não foi dessa vez. Carminus e Velotris teriam que fazer algo maior ainda para ganhar seus lugares no salão do Conselho.
Alguns ciclos solares após o incidente com os terráqueos, eles retornaram ao planeta Terra com a intenção de estabelecer um contato mais direto. Decidiram pousar no meio da selva Amazônica, onde, alguns minutos após descerem da nave, foram devorados por saúvas vermelhas.
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Texto magnificamente hilário, com uma clara inspiração de Douglas Adams.
(Droga, o lesado aqui quebrou o comentário)
Deve ser por isso que nós nunca fomos contactados por aliens.
“Os segundos seguintes de espera correram tão lentamente, que seria possível assistir a um próton e um anti-próton caminharem um em direção ao outro, trocarem elogios, encantarem-se um pelo outro, namorarem, pensarem em como encontrar a alma gêmea era maravilhoso, pensarem em como um casamento seria maravilhoso, desentenderem-se quanto à cor do carpete da futura casa (e como isso não era tão maravilhoso), desentenderem-se quanto às colegas de trabalho do próton (e isso definitivamente não era nem um pouco maravilhoso), desentenderem-se quanto à divisão de bens nucleares durante o processo de divórcio e finalmente, como ocorre com todos os casais divorciados do Universo, destruirem-se em milhões de partículas sub-atômicas. De qualquer forma, assim como tudo neste Universo, o momento infinito de espera finalmente chegava a um fim.” -> ROFL
Como o carinha aí disse, hilário e claramente espirado no Mochileiro das Galáxias, inclusive aquele capítulo no meio que nada tem a ver com os outros, mas também é interessante.
Genial a idéia de misturar ficção científica com humor de internet, espero que esse livro saia, de preferência impresso, pois e-book é uma merda.
Ah, sim, e eu lembro de ter lido o último capítulo há muito tempo aqui no blog, como você falou no início do post.
Parabéns, Cafetron!
Prra, esqueci de desligar essa merda dessa conta de RPG de novo. Ignora e finge que tá escrito “Argus” ali em cima ):
Gostei muito! Divertido, cheio de internas, lembra mesmo o Adams.
Tb espero q o livro saia.
Perceberam que os melhores textos do Cafetron têm poucos comentários? |:
gostei!
qndo o livro lançar, me avisa!
bem interessante..
Gostei bastante de seu site. Boas idéias atraem boas visitas ! Parabéns ! Mentalidade