Archive

Posts Tagged ‘cérebro’

Efeitos pós-monografia e desabafos

November 26th, 2008

Um curto desa­bafo de como duas sema­nas sob uma pilha de livros e longe da civi­li­za­ção abriu minha pers­pec­tiva de mundo. Este post trata sobre amor, ódio, pes­soas equi­li­brando obje­tos na cabeça e ornitorrincos.

Olá, esti­ma­dos leitores.

Como alguns de vocês já esti­ve­ram a par, con­cluí minha mono­gra­fia há exa­ta­mente 24 horas. Ela tem parte no meu curso de Física como um pré-requisito para con­cluir a gra­du­a­ção. Comu­mente, pes­soas mor­tais têm um ano inteiro para tra­ba­lhar o tema, enquanto deu­ses, semi-deuses, sumo-sacerdotes, sibi­las e cri­a­tu­ras mito­ló­gi­cas dis­põem de duas sema­nas bem cur­tas. Pes­soas que fize­ram está­gio em esco­las públi­cas e duas facul­da­des simul­ta­ne­a­mente, durante o ano todo, tam­bém se enqua­dram nessa cate­go­ria: entre semi-deuses e cri­a­tu­ras mito­ló­gi­cas. Durante esses 15 dias fatí­di­cos, erguendo pará­grafo após pará­grafo de um assunto com o qual eu não estava fami­li­a­ri­zado, até com­ple­tar 80 pági­nas, per­cebi pecu­li­a­ri­da­des mun­da­nas que gos­ta­ria de com­par­ti­lhar com vocês.

Em pri­meiro lugar, gos­ta­ria de fazer algu­mas con­si­de­ra­ções sobre a maneira como cos­tu­ma­mos viver — eu, você e qual­quer outra pes­soa em estado não-vegetativo. Expres­sar essa idéia vai ser bas­tante difí­cil, então preste aten­ção. Freqüen­te­mente ado­ta­mos um modo de viver nos­sas vidas muito pare­cido com o transe hip­nó­tico. No Ori­ente cha­mam esse estado de sam­sara. A grosso modo, o termo em sâns­crito sig­ni­fica fazer suas tare­fas diá­rias, com­ple­tar suas roti­nas mun­da­nas e não dar a mínima aten­ção para os deta­lhes à sua volta; não pres­tando aten­ção no aqui e no agora (nada mís­tico: ape­nas o pre­sente), dei­xando a vida pas­sar batida. Onde eu quero che­gar, de fato, é que a Inter­net fode com sua vida e con­tri­bui ampla­mente com o samsara.

“UAU! Des­co­briu que o modelo do orbi­tal atô­mico de Schrö­din­ger só é coe­rente com o con­ceito de spin”. Pode pare­cer óbvio para uns, bes­teira para outros, mas em ambos os casos a pes­soa imersa nesse estado de cons­ci­ên­cia não per­cebe que ela é pri­si­o­neira do à toa. Eu não havia notado — e tal­vez nunca nota­ria — se não tivesse me afas­tado do loop infi­nito que é Orkut <-> Gmail <-> mes­sen­ger <-> fóruns <-> lei­tor de feeds <-> Twit­ter <-> comen­tá­rios no blog.

Quando pude me iso­lar do mundo e con­se­guir paz, no meio do mato e longe da civi­li­za­ção, per­cebi que infor­ma­ção em excesso embur­rece o indi­ví­duo. Infor­ma­ção inú­til, devo sali­en­tar (des­culpe, pes­soas, mas devem con­cor­dar comigo que 99,5% dos scraps, e-mails, posts em fóruns, men­sa­gens no MSN e no Twit­ter são satis­fa­to­ri­a­mente res­pon­di­das com um “ah, é? foda-se”). Essa hipó­tese é cor­ro­bo­rada pela notí­cia recente que saiu na Folha Online: E-mail é mais pre­ju­di­cial a QI do que maco­nha, diz estudo.

Agora vem a grande sacada: infor­ma­ção de menos tam­bém pre­ju­dica. Caso con­trá­rio, vizi­nhas seden­tá­rias e obe­sas que assi­tem a nove­las o tempo todo seriam sábias pen­sa­do­ras capa­zes de ati­rar fra­ses pro­fun­das, e não somente per­gun­tar “se hoje vai cho­ver” quando topa com você na cal­çada. Per­ma­ne­cer em con­tato com a natu­reza lendo Aris­tó­te­les, filó­so­fos muçul­ma­nos, Eins­tein e tomos anti­gos de Ciên­cias abri­ram minha mente e pas­sei a enxer­gar o mundo muito mais cla­ra­mente. Acre­di­tem, o saber liberta mesmo e ainda pre­vine Alzheimer.

Em segundo lugar, quero fazer uma rápida abor­da­gem sobre o pen­sa­mento crí­tico. Sem­pre fui uma pes­soa de mente bas­tante aberta — nada de errado ou inco­mum. Para con­cluir minha mono­gra­fia, já que ela tra­tava de um aspecto mais dis­ser­ta­tivo da Física, tive que re-treinar a raci­o­na­li­dade além da mani­pu­la­ção de núme­ros. Ana­li­sando fri­a­mente o mundo à nossa volta, faça­mos algu­mas per­gun­tas úteis para agu­çar o pen­sa­mento crí­tico, no melhor estilo “Um Mundo Assom­brado por Demô­nios” do Carl Sagan.

i. Se dis­cos voa­do­res freqüen­te­mente visi­tam o pla­neta Terra, por que eles nunca foram vis­tos e repor­ta­dos por nenhum dos cen­te­nas de milha­res de astrô­no­mos, pro­fis­si­o­nais ou ama­do­res, sendo que eles são as pes­soas que mais obser­vam o céu à noite?

ii. Por que em regres­sões (indu­ções hip­nó­ti­cas para des­co­brir o que as pes­soas foram em encar­na­ções pas­sa­das) os paci­en­tes sem­pre foram már­ti­res ou figu­ras impor­tan­tes, e nunca pes­soas comuns que tive­ram vida e morte normais?

iii. Por que as pes­soas dizem sen­tir a pre­sença de Deus e dos anjos somente quando estão em grupo, se exer­ci­tando, gri­tando e em estado psi­co­ló­gico nota­vel­mente alte­rado, e nunca sozi­nhas, qui­e­tas e sen­ta­das de olhos fechados?

iv. Se Atlân­tida foi um con­ti­nente que afun­dou há 10.000−100.000 anos entre a Europa e a Amé­rica, por que os mapas da topo­gra­fia oceâ­nica indi­cam que de maneira alguma pode ter havido um con­ti­nente ali há tão curto inter­valo de tempo?

v. Se há 2000 anos um homem cami­nhou sobre as águas, trans­for­mou água em vinho, mul­ti­pli­cou comida e res­su­ci­tou um morto, por que nenhum his­to­ri­a­dor da época escre­veu sobre esses eventos?

vi. Por que viden­tes de bem, mas que cobram pelo ser­viço, não sim­ples­mente pre­vêem os resul­ta­dos de lote­rias ou cor­ri­das de cava­los, acu­mu­lam uma pequena for­tuna para sus­tento pró­prio, e pas­sam a fazer as con­sul­tas gratuitamente?

vii. Por que os e-mails e notí­cias fan­tás­ti­cas, quase mira­cu­lo­sas, que lemos freqüen­te­mente, sem­pre care­cem de uma fonte segura (e de vez em quando até os nomes das pes­soas envol­vi­das), se são tão bombásticos?

viii. No best­sel­ler “O Segredo”, é sali­en­tado que se uma pes­soa dese­jar imen­sa­mente algo, aquilo será atraído para ela. O que acon­te­ce­ria se todas as pes­soas do mundo dese­jas­sem ser ricas?

O inte­res­sante de fazer essas per­gun­tas a si mesmo é que ao final da refle­xão você con­clui que elas não escla­re­ci­da­mente des­pro­vam a exis­tên­cia ou ocor­rên­cia des­sas coi­sas, mas des­ban­cam mui­tas char­la­ta­ni­ces e aju­dam a preveni-lo con­tra futu­ras metra­lha­das de bullshit a esmo. Tam­bém for­çam você a pen­sar um pouco por conta pró­pria e não acre­di­tar em tudo que dizem. Além disso, ela está inti­ma­mente ligada com minha pri­meira abor­da­gem; o que importa é você desen­vol­ver o espí­rito inves­ti­ga­tivo que anseia por saber. Aqui segue uma tra­di­ção oral islâ­mica (had­dith) que li há alguns dias que é entusiasmante:

“(…) O bri­lho de um homem culto com­pa­rado àquele de um sim­ples crente é como o bri­lho da lua com­pa­rado ao das estre­las (…) Obte­nha conhe­ci­mento; a pes­soa que o detém dis­tingüe o certo do errado; ele aponta o cami­nho para o Céu; ele nos faz com­pa­nhia no deserto e na soli­dão, e quando nos encon­tra­mos sem ami­za­des; ele é nosso guia para a feli­ci­dade; ele nos dá força na misé­ria; ele é um orna­mento aos ami­gos, pro­te­ção con­tra os ini­mi­gos (…) O nan­quim de um sábio é mais sagrado que o san­gue de um már­tir (…)”.

Caramba, aposto que ouvir isso em pleno século VI d.C. deve­ria ser como um balde refres­cante de luci­dez com menta.

Vou ficando por aqui. Por­tanto, ami­gos, lembrem-se do recado: leiam mais livros, fiquem longe do com­pu­ta­dor se não tive­rem nada de útil pra fazer, comam ver­du­ras e quando te dis­se­rem algo fan­tás­tico, exija tam­bém pro­vas fan­tás­ti­cas. Façam disso um novo modo de vida e verão como a rea­li­dade pare­cerá mais clara. E tra­tem ime­di­a­ta­men­tem de viver o agora e parem de empur­rar suas vidas com a bar­riga. E não comam muita gor­dura. Esse é o sen­tido da vida. Ah, e se virem uma tatu­rana verde com galhi­nhos pelo corpo, não encos­tem nela — pode arder um pouco.

AVISO
Este foi um post intros­pec­tivo com um certo quê de eru­di­ci­dade e filo­so­fia. Em breve vol­ta­re­mos com nos­sas ati­vi­da­des nor­mais, assim que ter­mi­nar de ler as 78 men­sa­gens não veri­fi­ca­das na caixa de e-mails.

Popu­la­rity: 6% [?]

Comportamento, Destaques , , , , , , , ,