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O pássaro adivinho

August 11th, 2009

Umas pou­cas con­tas de guar­da­napo tal­vez não lhe per­mi­tam afir­mar cate­go­ri­ca­mente que o mons­tro do Lago Ness era (ou não) um sub­ma­rino U-Boat nazista, mas elas ser­vi­rão de fer­ra­men­tas para que você des­vende alguns mitos popu­la­res de forma ele­gante e inte­li­gente quando for neces­sá­rio. No post de hoje, vamos ana­li­sar cri­te­ri­o­sa­mente o mito do pas­sa­ri­nho que adi­vi­nha quando vem visita em casa.

Enquanto a nova tiri­nha não sai do forno, resolvi dar o ar da graça com um pequeno mito popu­lar bas­tante bacana e que cabe como exem­plo para que você ana­lise raci­o­nal­mente as his­tó­rias que você ouve por aí.

De quando em quando tenho a opor­tu­ni­dade de res­pi­rar o ar do campo, uma bafo­rada dracô­nica de alí­vio ime­di­ato para minha rinite alér­gica — a mal­di­ção de todo nerd que se preze — e com cheiro de pinus sil­ves­tre. Na última vez, tive o pri­vi­lé­gio de ouvir o canto de um pás­saro que, segundo uma cari­nhosa senhora que vive pelas redon­de­zas e nos aco­lhe com delí­cias de cho­co­late, tem a habi­li­dade de adi­vi­nhar quando uma visita está para che­gar, e mais: a ave tem o dom de saber se a visita é fami­liar, um des­co­nhe­cido ou alguém que chega para pernoitar.

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Além de adi­vi­nhar mais que astró­lo­gos, ainda voa.

“Minha mãe me con­tava essa his­tó­ria quando eu era cri­ança, e curi­o­sa­mente sem­pre fun­ci­o­nava”, disse ela. Quando o piti­guari (Cyclarhis guja­nen­sis) canta diante da janela da cozi­nha, é sinal de que alguém fami­liar está para che­gar. Se o pás­saro canta na dire­ção da janela da sala, seria um des­co­nhe­cido; na janela do quarto, uma pes­soa que pro­cu­rava uma cama.

Como isso é pos­sí­vel? Ana­li­se­mos a situ­a­ção: não sabe­mos qual a pre­fe­rên­cia do piti­guari em rela­ção a seu cômodo favo­rito, então con­si­de­re­mos que ele cante ao acaso nas três jane­las. Desse modo, a pro­ba­bi­li­dade do pás­saro acer­tar na sorte qual dos três tipos de visita che­gará naquele dia é de 1/3 ou 33% apro­xi­ma­da­mente. Difi­cil­mente, então o pás­saro adi­vi­nha cor­re­ta­mente o tipo de visita — pelo per­dão da pala­vra — na mais pura e lím­pida cagada.

Qual será o segredo desta ave? Teria ela pode­res para­nor­mais? Será ela uma ótima com­pa­nhia para viden­tes e donos de pou­sa­das? Que tal ana­li­sar­mos o pro­blema mais pro­fun­da­mente? Deve­mos pri­mei­ra­mente cons­truir o espaço amos­tral do pro­blema, ou seja, lis­tar todas as pos­si­bi­li­da­des pos­sí­veis de ocor­rer em deter­mi­nado dia entre o tipo de visita e a loca­li­za­ção do canto (supondo, logi­ca­mente, que não mais que um tipo de visita apa­reça em casa, para não dar nó na cabe­ci­nha do passarinho).

Pes­soa: estra­nho, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: estra­nho, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: estra­nho, Local do pás­saro: cozi­nha
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: cozi­nha
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: cozinha

Os itens em negrito repre­sen­tam as com­bi­na­ções cor­re­tas, ou seja, quando o pás­saro está can­tando no lugar certo naquele dia.

Pri­mei­ra­mente, com alguma obser­va­ção in situ, notei que é pos­sí­vel sim­pli­fi­car o pro­blema. Esta senhora rara­mente recebe a visita de estra­nhos, tanto pela natu­reza das pes­soas daquela região (onde todos são conhe­ci­dos uns dos outros) quanto pela dis­tân­cia da cidade, eli­mi­nado as visi­tas até mesmo de car­tei­ros. Apro­xi­ma­da­mente de cada 50 visi­tas de conhe­ci­dos, há uma de des­co­nhe­ci­dos. Caso quei­ra­mos incluir os estra­nhos em nosso cál­culo, o resul­tado final seria de algu­mas casas deci­mais. Dessa maneira, nosso espaço amos­tral pode ser sim­pli­fi­cado a:

Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: cozi­nha
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: cozinha

As chan­ces do pás­saro acer­tar ao acaso con­ti­nuam sendo de 1/3, mas agora há outro deta­lhe que dei­xa­mos pas­sar. Em nossa cul­tura, é soci­al­mente esqui­sito dei­xar com­ple­tos estra­nhos dor­mi­rem na sua casa. Por­tanto, uma pes­soa que se enqua­dra como hós­pede pro­va­vel­mente é algum conhe­cido. Logo, há novas com­bi­na­ções de acerto:

Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: cozi­nha
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: cozinha

Ficou agora um pouco mais pro­vá­vel que o pás­saro adi­vi­nhe a estirpe das visi­tas ao acaso, já que suas chan­ces são de 1/2, ou seja, a mesma pro­ba­bi­li­dade de você con­se­guir uma cara ao jogar uma moeda. Com cer­tos deta­lhes da nossa con­versa, é pos­sí­vel ir um pouco além. Na época da sua infân­cia, os car­ros eram um bem muito raro. Devido à dis­tân­cia em que se loca­li­zava sua resi­dên­cia, supõe-se que quando hou­vesse a visita de fami­li­a­res eles teriam de per­noi­tar. Minhas expec­ta­ti­vas se con­fir­ma­ram quando a senhora disse: “… e ao final da tarde, quando che­gava uma visita, ela (a visita) ficava sur­presa por saber­mos ante­ci­pa­da­mente de sua vinda”. Desse modo, nosso espaço amos­tral agora tem a seguinte configuração:

Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: conhe­cido, Local do pás­saro: cozi­nha
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: quarto
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: sala
Pes­soa: hós­pede, Local do pás­saro: cozinha

As chan­ces agora do pás­saro adi­vi­nhão são de 2/3, um valor duas vezes mais gene­roso do que nossa pri­meira esti­ma­tiva de 1/3. Se, então, levás­se­mos em conta o número de quar­tos na casa em ques­tão, have­ria muito mais área de dor­mi­tó­rio para o pás­saro can­tar, e as chan­ces subi­riam para 4/5. Este número parece ser espe­ci­al­mente plau­sí­vel se con­si­de­rar­mos a fra­queza da hipó­tese do pás­saro ter pode­res mis­te­ri­o­sos, já que mui­tas vezes que estive lá o pás­saro can­tou e não apa­re­ceu nenhuma alma penada; ou se con­si­de­rar­mos o fato natu­ral do ser humano não ser capaz de per­ce­ber nem pro­du­zir uma seqüên­cia ale­a­tó­ria de even­tos, e ten­tar bus­car padrões que con­fir­mem suas cren­ças pes­so­ais em meio a even­tos sem cor­re­la­ção alguma entre si.

A sabe­do­ria e os con­tos popu­la­res são parte ines­ti­má­vel da nossa cul­tura. Nelas há o poten­cial para conhe­cer­mos mais sobre nos­sos ante­pas­sa­dos, nossa terra e sobre nós mes­mos e, por escan­teio, ainda abre as jane­las para você exer­ci­tar seu lado cientista.

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