Home > Uncategorized > Arte de Enganar na Escrita

Arte de Enganar na Escrita

Uma das prin­ci­pais falá­cias da lin­gua­gem escrita é que, por vezes, o escri­tor é munido de tempo livre sufi­ci­ente para embe­le­zar a men­sa­gem a ponto de fazer o lei­tor cho­rar tor­ren­ci­al­mente frente a uma pro­fu­são de pala­vras boni­tas e reple­tas de sig­ni­fi­cado, tal como aca­bei de fazer. Falá­cia, digo eu, pois o lei­tor pode ser facil­mente tape­ado acerca de como o escri­tor é ou pensa. Ou você real­mente acha que eu falo bonito desse jeito ao vivo?

Dife­rente da lin­gua­gem falada, que você dis­cursa no tapa e expõe on-the-fly o que se passa na sua cabe­çorra, na lin­gua­gem escrita é per­mi­tido pen­sar três ou qua­tro vezes e poten­ci­a­li­zar ou reor­ga­ni­zar seu raci­o­cí­nio antes de expô-lo.

Uma con­fis­são para as mulhe­res. Quando abor­da­mos uma garota para uma decla­ra­ção de amor, por exem­plo, temos a van­ta­gem de escon­der a gagueira men­tal e fazer com que pare­ça­mos con­fi­an­tes e per­di­dos de pai­xão somente na pri­meira frase, pre­pa­rada cui­da­do­sa­mente durante o banho. Uma con­fis­são para as mães. Quando fica­mos mais de 30 minu­tos no banho, não pense bes­tei­ras — esta­mos botando para fora o Luís de Camões que existe den­tro de nós.

Depois desse pri­meiro con­tato, fica­mos à deriva em uma con­ver­sa­ção cheia de fra­ses pelas quais não está­va­mos preparados.

- Oi, você é linda como os raios tími­dos e frá­geis do Sol cadente, der­ra­mado atra­vés dos céus púr­pu­ros de entar­de­cer na pri­ma­vera.
– Que bonito! Mas o que você viu em mim? Por que você acha isso? (per­gunta sur­presa)
– P-porque… sim.

Já no MSN ou reca­di­nhos em guar­da­na­pos, a balança pesa em nosso favor, pois temos tempo para pen­sar muito antes de falar­mos qual­quer bes­teira entre uma frase e outra. Mais um con­fis­são, mulhe­res. Quando con­ver­sa­mos com vocês e even­tu­al­mente demo­ra­mos para res­pon­der, é por­que esta­mos a nos des­ca­be­lar em busca das pala­vras per­fei­tas ou pedindo ajuda aos cole­gas de quarto em quê res­pon­der, tudo para não pare­cer­mos idiotas.

No mundo pro­fis­si­o­nal, a arte de enro­lar os outros com pala­vras boni­tas rende muito dinheiro. Eu pen­sava dife­rente, que um texto sucinto e enxuto era a chave para um cargo res­pei­tá­vel em uma revista ou jor­nal, até dar de cara com um artigo da Nati­o­nal Geo­graphic sobre o beija-flor.

Neste inter­valo de tempo que o escri­tor teve para ela­bo­rar seu artigo, ele encheu lingüiça rodando o dici­o­ná­rio de sig­ni­fi­ca­dos do Micro­soft Word e tendo seu texto revi­sado por 18 pes­soas dife­ren­tes, fora o grupo de con­trole, e acres­cen­tando algu­mas suges­tões que a mãe viu no livri­nho de poe­mas que ela guar­dava desde o giná­sio. Aposto que se em uma entre­vista ao vivo per­gun­tas­sem ao rapaz sobre sua opi­nião a res­peito do pás­saro, ele diria sim­ples­mente “hum, bacana”.

Beija-Flor-de-Veludo

Uma faísca safira, um frê­mito de asas, e o minús­culo pás­saro — ou seria um inseto? — some como mira­gem fugaz.
(…)
É pás­saro mesmo, um der­vixe do tama­nho do meu pole­gar com asas que batem 80 ver­ti­gi­no­sas vezes por segundo, pro­du­zindo um zum­bido quase inau­dí­vel.
(…)
Ele fita a trom­beta de uma vis­tosa flor ala­ran­jada e do bico fino como agu­lha pro­jeta uma lín­gua del­gada feito linha. Um raio de Sol rico­che­teia de suas penas iri­des­cen­tes. A cor refle­tida des­lum­bra como uma pedra pre­ci­osa con­tra uma janela enso­la­rada.

– Nati­o­nal Geo­graphic Bra­sil, Feve­reiro 2007, página 71

Se você não enten­deu, ten­ta­rei traduzir.

Beija-Flor Abis­coi­tado

Um pas­sa­ri­nho azul claro que bate asas como um filho da mãe, que se visto sob luz estro­bos­có­pica e garoa de LSD por um obser­va­dor den­tro de um carro de For­mula Indy com o eixo tra­seiro subs­ti­tuído pelo pé de uma mesa, até pode­ria ser con­fun­dido com um inseto, some sem dei­xar recado feito mulher de vaga­bundo.
(…)
É pas­sa­ri­nho mesmo, uma por­ca­ri­a­zi­nha do tama­nho do meu dedão com asas que batem 80 vezes por segundo na fri­tân­cia, fazendo um baru­lho que não dá para ouvir nem com o volume do Winamp no talo.
(…)
Ele mal vê a cabeça de uma flor laranja bem bonita e já sai metendo a lin­gua­zi­nha safada. Um raio de Sol é refle­tido de suas penas cheias de estilo. A cor vista ali é digna de um papel de parede para a área de tra­ba­lho do seu computador.

Por vezes acre­dito que posso escre­ver tão lin­da­mente quanto ele, com a sutil dife­rença de que não embolso cen­tavo algum com minhas peri­pé­cias lite­rá­rias. Se você não enten­deu, o que eu quero dizer é que der­vixe fugaz e cheio de iri­des­cên­cia é meu ovo.

Popu­la­rity: 1% [?]

Enviar por e-mail Enviar por e-mail Twitter

Uncategorized

Posts relacionados

  1. Techu­ser
    February 9th, 2007 at 11:41 | #1

    Unknown Unknown

    Fri­tân­cia !!! AEJOASHEHIOESHAOI

  2. February 10th, 2007 at 20:36 | #2

    Unknown Unknown

    Segun­dão.
    E gra­ma­ti­ca­mente correto.

  3. Shark Oi titica
    February 13th, 2007 at 08:36 | #3

    Unknown Unknown

    CARALHO! Onde você dá [color=white]aula[/color]?

  4. chris+bele
    August 31st, 2008 at 23:49 | #4

    MSIE 7.0 Windows Vista

    rimos à beça!!
    =P

  1. No trackbacks yet.