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Aos menores de 18 que estiverem lendo

Hoje foi meu pri­meiro dia de está­gio como docente. Tive ape­nas que assis­tir a algu­mas aulas de Ciên­cias em uma escola pública, escon­dida nos gue­tos da minha cidade. Aqui segue o rela­tó­rio do que pude pre­sen­ciar. Espero que você, que esteja lendo tudo isso, tome ver­go­nha nessa cara mal lavada e dê um pouco de orgu­lho a seus pais.

hellny7 em Aos menores de 18 que estiverem lendo
Retrato sim­bó­lico de uma classe medi­ana de 7a série da rede pública de Ensino.

Atra­vés de meios mági­cos, aos quais não posso citar devido às regras da irman­dade oculta a qual par­ti­cipo, sei que mui­tos fede­lhos e pim­po­lhos que estu­dam entre a 5a. e 8a. série lêem este blog. As per­gun­tas a seguir, quiçá o post todo, é des­ti­nado prin­ci­pal­mente para vossa refle­xão. Como raios vocês agüen­tam ir à escola todo dia, se uma balada seria bem mais pro­vei­tosa, já que a escola hoje não passa de uma rave à luz do dia? Vocês por um acaso sabem o quanto o seu pro­fes­sor gasta em anti­de­pres­si­vos para aguentá-los? Se você não sabe do que estou falando, é um bom sinal. Você ainda tem futuro. Caso contrário…

A Escola

Espe­rando por uma for­ma­li­dade con­ser­va­dora, que­brei a cara logo no começo. Nin­guém me exi­giu iden­ti­fi­ca­ção alguma. Se eu fosse um drug dea­ler do GTA, teria fatu­rado o equi­va­lente a um carro zero-km só no pri­meiro dia. A escola em si era mais con­ser­vada do que eu espe­rava. Umas pixa­ções aqui e ali, e alguns canos que­bra­dos. Inclu­sive, segundo infor­man­tes, houve um dia em que a dire­to­ria da escola orga­ni­zou um muti­rão de lim­peza e colo­cou os alu­nos para aju­da­rem a lim­par a zona. A polí­cia foi cha­mada pois alguém disse que cri­an­ças esta­vam tra­ba­lhando for­ça­da­mente. Iro­nia ou não, os alu­nos não são res­pon­sá­veis a lim­par o pró­prio vandalismo.

A cara de pânico dos pro­fes­so­res era evi­dente cada vez que nos cru­zá­va­mos pelos cor­re­do­res. A pro­fes­sora de Ciên­cias que me aco­lheu ficou excep­ci­o­nal­mente con­tente por ter rece­bido refor­ços. A aula come­ça­ria à 1h da tarde, mas os alu­nos só se aco­mo­da­ram por volta da 1h35.

As Salas

Algo que achei bas­tante inte­li­gente, e da qual não usu­fruia nos meus tem­pos de meni­nisse, eram salas temá­ti­cas. Nessa escola aí, os alu­nos se des­lo­cam de sala de acordo com a maté­ria. Assim, uma sala de Quí­mica seria um labo­ra­tó­rio todo equi­pado, como o escon­de­rijo secreto onde fabri­ca­vam ooze no filme das Tar­ta­ru­gas Nin­jas. Uma sala de Edu­ca­ção Artís­tica seria um ate­liê davin­ci­ano repleto de pin­tu­ras e tra­ba­lhos arte­sa­nais. Obvi­a­mente esta­mos falando de um país onde as prin­ci­pais figu­ras fol­cló­ri­cas são uma mula decap­tada e um mano de gorro ver­me­lho que fuma cachimbo e rouba coi­sas, pulando numa perna só, por haver per­dido a outra perna pro­va­vel­mente fugindo dos puliça em alguma batida. Se o obje­tivo era dei­xar as salas ade­qua­das a cada maté­ria, a escola falhou mise­ra­vel­mente. A sala de Ciên­cias pos­suia somente uma tabela de tabu­a­das colada em cima da lousa, do 1 ao 6. Havia tam­bém 5 car­ta­zes fixa­dos com tra­ba­lhos artís­ti­cos sobre natu­reza, pro­va­vel­mente fei­tos pelos pró­prios alu­nos. Além disso, a classe se encon­trava van­da­li­zada, pixada do roda-pé da lousa até os ven­ti­la­do­res do teto que­bra­dos, lixo jogado e car­tas de bara­lho pelo chão.

A Aula

A pro­fes­sora, ao entrar na sala, fez a cha­mada e come­çou a pas­sar a maté­ria na lousa, sem pes­ta­ne­jar. A aula se ini­ciou com o assunto “Evo­lu­ção”. Ela havia cobrado, para este dia, uma reda­ção com o tema “O que eu faria para melho­rar a minha satis­fa­ção pes­soal, física e psi­co­ló­gica”. Porém, como nin­guém havia tra­zido nada pronto e tam­pouco come­çado, ela adiou a entrega para a aula seguinte. É espan­tosa a bene­vo­lên­cia da pro­fes­so­ri­nha em ques­tão, se é que pode­mos cha­mar de bene­vo­lên­cia a impo­tên­cia de con­tro­lar um bando de ani­mais agi­ta­dos. Não há como man­ter a aten­ção na classe, senão ajus­tando sua gar­ganta a 150 deci­béis e com uma des­carga de Blo­o­dlust.

A classe atra­sava a aula o tempo todo, pois nossa docente saía para garim­par alu­nos ausen­tes na sala e acal­mar os que esta­vam bes­ti­al­mente ani­ma­di­nhos. Enquanto a pro­fes­sora passa a maté­ria na lousa, alguns gri­tam “Sai da frente, porra, senão eu não vou mais copiar, cara­lho!”. Toda famí­lia deve­ria ensi­nar o res­peito a esses puti­nhos que ocu­pam um lugar na escola pública com suas bun­di­nhas sua­das. No entanto, a falta deste termo na escola é estú­pida e tris­te­mente evi­den­ci­ada em ape­nas alguns minu­tos de aula.

Era agora 1h52 e a pro­fes­sora não havia saído do pri­meiro qua­dro de maté­ria, sem pro­nun­ciar uma pala­vra ao menos. A este ponto, não faria dife­rença alguma, pois os gru­nhi­dos da classe cobri­riam a onda de impacto de um aste­róide de médio porte se cho­cando com um gongo de bronze. De momento em momento, alguém ati­rava um giz cer­teiro con­tra a cabeça da pro­fes­sora. Esta nada pode­ria fazer a não ser igno­rar a fan­ta­sia demente de um futuro atleta bra­si­leiro arre­mes­sa­dor. A pro­fes­sora, no entanto, não era alvo único. O espaço aéreo da sala se tor­nou mais movi­men­tado que o trá­fego de Boeings sobre a Europa, ocu­pado por gizes, cane­tas, aviões de papel, sabo­ne­tes des­go­ver­na­dos e cadei­ras ala­das. Até eu fui atin­gido por um pro­jé­til esfe­ro­grá­fico per­dido (ou tal­vez não tão per­dido).
Como toda boa escola, o uso de livros didá­ti­cos é obri­ga­tó­rio mas pouquís­si­mos alu­nos os tra­zem.
As aulas são noto­ri­a­mente tra­ta­das com des­caso pelos alu­nos, sendo que durante elas não há qual­quer demons­tra­ção de desem­pe­nho por parte deles e isto de maneira nenhuma é cobrada pela escola.

A pro­fes­sora ter­mina de escre­ver algu­mas linhas de maté­ria na lousa e pede à classe que façam um resumo de uma página do capí­tulo do livro, valendo nota na média final. Ela pro­mete que se eles se com­por­ta­rem, brin­ca­rão de forca com ter­mos rela­ci­o­nado à maté­ria. 2h55 e o resumo é cobrado uma vez, mas a mai­o­ria não o entrega. Con­tra a con­di­ção de que a ati­vi­dade lúdica seria efe­tu­ada somente sob com­por­ta­mento ade­quado, a pro­fes­sora resolve brin­car de forca mesmo assim, esquecendo-se do tal resumo. Após alguns minu­tos de caos, o jogo da forca tam­bém foi esque­cido, dando lugar a uma alga­zarra vista somente no pri­meiro Woods­tock, em 1969.

Os Alu­nos

Minha parte pre­fe­rida do post e que ren­de­ria um bom docu­men­tá­rio no Reino Ani­mal da Dis­co­very. Eram 25 alu­nos pre­sen­tes, divi­di­dos em 5 gru­pos dis­tin­tos: os nerds, as patys, os manos, e os nor­mais femi­ni­nos e mas­cu­li­nos. Ape­nas 10 deles copi­a­vam a maté­ria da lousa. Alguns saem da classe sem pedir per­mis­são à pro­fes­sora, outros falam ao celu­lar e dei­xam o MP3 player cor­rer solto. Você deve se per­gun­tar se algum pos­sui o rabo sen­tado em algum lugar, e de fato, pos­sui: sobre a mesa e cadeira do professor.

Algu­mas alu­nas não uti­li­zam peça alguma do uni­forme, indo com cal­ças de ginás­tica e blu­si­nhas deco­ta­das, se agar­rando em meio a todo mundo com os manos ou outros, como um Col­lege Fuck Fest. Vamos lá, estou falando de uma classe de sétima série! Alguém conhece Black Eyed Peas? Iden­ti­fi­quei no mínimo umas cinco garo­tas que faziam dublê da “voca­lista”, mas sem aquele hun­key hump pós-hormônios.

blackeyedpeas1280x1024bn0 em Aos menores de 18 que estiverem lendo

Black Eyed Peas. Quase pedi um autógrafo.

Algu­mas delas ainda usa­vam maqui­a­gem deve­ras pesada. Parece-me que, nesta cul­tura, isto é uma indi­ca­ção visual de quem vai engra­vi­dar antes dos 14 anos.

Alu­nos de outras salas tran­si­tam livre­mente nesta, tra­zendo lan­ches e bebi­das. A dife­rença de idade entre os alu­nos é gri­tante: dos 12 a 16. Como em todo grupo, os ani­mais mais velhos ten­dem a impor res­peito aos mais novos na base da den­tada. Vio­lên­cia física entre os alu­nos alcança o nível tole­rá­vel de uma rebe­lião de pre­sí­dio. Pala­vre­ado e conhe­ci­mento mais que obs­ceno uti­li­zado nas con­ver­sas faria inveja ao mais expe­ri­ente dos sexó­lo­gos. Alguns alu­nos dese­nham na lousa, con­tra a per­mis­são da pro­fes­sora, sím­bo­los pixa­dos no muro da escola, sem medo de serem acusados.

Os garo­tos meno­res, como dito antes, são as pre­sas pre­fe­ri­das da mai­o­ria. Um deles era o CDF da sala, todo engo­ma­di­nho e muito qui­eto, porém, nin­guém o per­tur­bava. Pro­va­vel­mente o tri­bu­nal judi­ciá­rio esta­be­le­ceu um perí­me­tro limite ao qual nin­guém mais pode­ria ultra­pas­sar, ou uti­li­zava seu cére­bro pul­sante com pode­res psí­qui­cos para indu­zir men­tal­mente pala­vras repul­si­vas de comando aos demais.

Nada obs­tante, o alvo geral da sala, um dos alu­nos iso­la­dos de menor idade e esta­tura, foi per­tur­bado a aula inteira com chu­tes, cro­ques na cabeça, saqui­nhos d’água, cadei­ras arre­mes­sa­das e cane­tas ala­das, fina­li­zando cate­go­ri­ca­mente com uma bomba de pó de giz no cabelo, se tor­nando assim o mas­cote pre­fe­rido da sala, ape­li­dado cari­nho­sa­mente de Clo­do­vil. Fico ima­gi­nando os danos psi­co­ló­gi­cos cau­sa­dos a uma cri­ança dessa idade que pre­cisa tanto de um rela­ci­o­na­mento social sau­dá­vel para se tor­nar um adulto com­pleto. São esses pobres seres que no futuro aca­bam se tor­nando manía­cos sexu­ais, assas­si­nos em série e aten­den­tes de tele-marketing.

Mas este era ape­nas um loi­ri­nho raquí­tico con­tra seis MANO DAS KEBRADA E PAS BLZ MOROW MANO RAP E RESSPEITO ISSAÊ e mesmo assim ele sor­ria de uma forma bené­vola e ino­cente, como se admi­rasse todo o espe­tá­culo do circo no qual ele era o ursi­nho retar­dado de saia ten­tando se equi­li­brar em uma bola. Deste com­por­ta­mento pecu­liar, pude con­cluir duas alternativas:

1) O menino desen­vol­veu a Sín­drome de Esto­colmo, onde o agre­dido começa a ter sim­pa­tia pelo agres­sor;
2) Por den­tro ele esta­ria pen­sando “isso… dêem risada! Apro­vei­tem esta semana, enquanto vocês ainda têm mandíbulas”.

A pro­fes­sora, per­ce­bendo que a classe estava se esvai­rando e per­dendo o con­torno, se tor­nando intan­gí­vel e fugindo para um plano infer­nal infe­rior, resol­veu usar as rédeas que lhe fal­ta­vam e acu­sou erro­ne­a­mente outro aluno do feito. Isto aca­bou cau­sando revolta a quem pres­tava aten­ção ao espe­tá­culo, com jar­gões pejo­ra­ti­vos que não aprendi em 5 anos de facul­dade, e uma semi-agressão física.

Quando tudo pare­cia per­dido e com­ple­ta­mente fora de con­trole, o líder do bando se fan­ta­siou de Bat­man e saiu cor­rendo da sala, ber­rando como um mamute em cha­mas. A pro­fes­sora con­vida então o aluno dema­si­a­da­mente agi­tado a ir embora. Desa­cre­di­tado daquele cená­rio mal­dito, saio da sala na hora do inter­valo e vejo uma rodi­nha de 6 ou 7 alu­nos, segu­rando um menino bem menor do que eles e con­tra a von­tade, simu­lando um estu­pro. Como não havia ins­pe­tor nenhum, coube à pro­fes­sora, que havia aca­bado de sair da sala, ir até lá e aca­bar com a cena repugnante.

E assim ter­mi­nou meu dia. Tema, tema muito, pois vol­ta­rei a semana que vem para dar a aula de Ciên­cias para essa turma.

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  1. Daphné
    December 23rd, 2006 at 12:56 | #1

    Unknown Unknown

    “Fico ima­gi­nando os danos psi­co­ló­gi­cos cau­sa­dos a uma cri­ança dessa idade que pre­cisa tanto de um rela­ci­o­na­mento social sau­dá­vel para se tor­nar um adulto com­pleto. São esses pobres seres que no futuro aca­bam se tor­nando manía­cos sexu­ais, assas­si­nos em série e aten­den­tes de tele-marketing.”

    Ou misan­tró­pi­cos crônicos. :~~~~~~~~~~

  2. Pedro
    April 6th, 2008 at 17:15 | #2

    Unknown Unknown

    É triste

    Mas eu ri
    : P

  3. Lima
    September 8th, 2008 at 23:28 | #3

    Chrome 0.2.149.29 Windows Vista

    Eu não ri. =(

    • Lima
      September 8th, 2008 at 23:35 | #4

      Chrome 0.2.149.29 Windows Vista

      Estu­dei a 6ª série em uma escola assim. Eu era o nerd com pode­res… ou que os outros acha­vam sem graça. Por algum motivo me davam mérito e zua­vam só os que esta­vam acos­tu­ma­dos. triste.

      Um dia me pren­de­ram com uma algema na janela. Na ver­dade eles iam pren­der alguma cobaia humana, mas eu me ofe­reci para mos­trar que não tinha graça. Aí man­dei tira­rem. Quando man­dei pela segunda vez com cara de “Eu sei como fazer você sofrer de for­mas que você des­co­nhece” eles me sol­ta­ram. Estra­nho, não?

      Nossa… de repente per­cebo… se eu não tivesse estu­dado em escola par­ti­cu­lar durante o começo de minha infân­cia pode­ria ter desen­vol­vido minha agres­si­vi­dade latente, me tor­nado um jovem líder de gang e hoje esta­ria por aí, ou preso, ou morto, ou traficando.

  4. October 21st, 2008 at 20:14 | #5

    Firefox 3.0.3 Windows XP

    vaise fude todo mundo!!!

  5. Faok
    October 26th, 2008 at 11:53 | #6

    Firefox 3.0.3 Windows XP

    É…

    tam­bém pas­sei por isso no meu está­gio de licen­ci­a­tura…
    aca­bei desis­tindo de ser pro­fes­sor depois disso…
    Feliz­mente con­se­gui sobre­vi­ver aos ata­ques das “paqui­tas eró­ti­cas”, as meni­nas da turma de 6ª série que pare­ciam mais expe­ri­en­tes que a mãe de mui­tos polí­ti­cos por aí…
    ¬.¬

  6. Fui­nha
    June 18th, 2009 at 01:29 | #7

    Firefox 3.0.11 Ubuntu

    sabe o que mais me assusta? Já ouvi rela­tos pio­res do que esses… Gera­dos por uma turma de 4ª serie…

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